Recentemente tive acesso a um estudo global da Booz & Company, realizado anualmente, sobre a sucessão de CEOs nas empresas. Os resultados de 2008 confirmam as transformações que já havíamos constatado: a estabilidade dos presidentes no cargo é cada vez mais efêmera, refletindo uma mudança de paradigma.
O estudo - que ouviu as 130 maiores empresas brasileiras com ações em bolsa e receita líquida acima de 500 milhões de reais - registrou um crescimento de 4,6% na rotatividade de CEOs no Brasil no ano passado. Em princípio, pode parecer um movimento perverso. Mas vejo como algo natural. Faz parte do jogo que o número um das organizações seja avaliado e desafiado constantemente.
Sua permanência na posição precisa estar associada ao seu desempenho. Essa passou a ser a regra e quem assume o comando de uma companhia sabe dos riscos implícitos e explícitos do cargo. Da mesma forma que muitos deveriam entender que alcançar o posto mais alto em uma empresa não significa que já se chegou à última fronteira.
A vida é feita de ciclos, ciclos que têm começo, meio e fim. O que não podemos é manter pessoas incapazes na mesma posição por medo de promover mudanças no meio da tempestade. É o que vem acontecendo nos mercados atingidos em cheio pela crise, como Estados Unidos e Europa. Ao contrário do Brasil, houve uma ligeira queda no turnover de executivos nesses países nas 2500 empresas pesquisadas mundialmente.
Trocas de comando sempre geram incertezas, as quais ninguém quer pagar para ver seus possíveis desdobramentos diante de tanta volatilidade do ambiente externo. Resultado: preferem manter no cargo CEOs experientes. Quase 20% dos presidentes lá fora já ocuparam o posto de CEO antes, enquanto no Brasil, essa proporção é muito maior: 46% dos CEOs que assumiram em 2008 apresentavam experiência prévia no cargo.
Boa notícia? Nem tanto. No fundo, não se está valorizando a ampla bagagem e capacidade de liderança que os cabelos brancos têm de sobra. A crise tem levado os conselhos a adotar uma atitude tipicamente conservadora, com o único objetivo de evitar o aumento da instabilidade.
Todos tentam impedir rupturas e acabam causando um problema adicional. Mas não se enganem, após o furacão, as decisões dos CEOs serão ainda mais esmiuçadas, suas performances analisadas com lupa e as taxas de turnover, consequentemente, aqui no Brasil crescerão ainda mais e voltarão a subir lá fora. Ou seja, os mais experientes só são vistos com bons olhos na hora de apagar incêndios.
Se a saída da crise exigir das empresas mudanças estruturais profundas - o que aposto firmemente - esses CEOs mostrarão que não possuem o rol de competências necessárias para o novo cenário que despontará. O medo que hoje as empresas têm em errar e experimentar “sangue novo”, (não pela idade) de dar uma chance a quem nunca esteve em posição de liderança, é paralisante. E a paralisia nos negócios é fatal.
Pior foi me deparar com uma matéria da revista Exame e ver que há empresas que decidiram remunerar integrantes do conselho com base em sua performance. Ainda não tenho dados suficientes para fazer uma avaliação conclusiva, mas em princípio não sou favorável. Não vejo vantagem alguma. Pelo contrário.
Como profissionais na função de supervisionar ações da empresa e de seus principais executivos podem ter independência de julgamento se vão receber remuneração variável, pelo desempenho? Nesse caso, remunerar por performance só contamina a isenção de julgamento. E quando se começa a transigir, perde-se a independência. Se a idéia prosperar, preparem-se para escândalos à vista. Será que você não viu esse filme antes?




Você não tem de ceder!