Dias atrás, uma grande amiga, que atua no mercado de consultoria, veio conversar comigo. Estava se sentindo acuada, sem saída, pressionada por todos os lados. Sem hora para sair do trabalho, passou a acumular mais trabalho nos fins de semana, deixando-a sem tempo para os filhos. Com os efeitos da crise, a empresa em que trabalha passou a cobrar ainda mais por resultados e, de contrapartida, reduziu seu salário.
Visivelmente esgotada, me perguntou o que fazer. Sabe que o momento não é um dos melhores e acredita que se não der mais o sangue corre o risco de levar o cartão vermelho. Está até com medo de tirar férias e quando voltar, ter sua cadeira ocupada por outra pessoa. Esse clima de medo e insegurança tem atingido muitas pessoas com quem encontro nos últimos meses.
Continuo surpreso diante das histórias que ouço e eis que, sem querer, pego a revista Exame sobre as maiores empresas no País. Lá encontro artigo do Jack Welch falando de uma postura que ele defendia há alguns anos voltando à cena: abdicar da vida pessoal e fazer mais do que o empregador espera do funcionário. É natural que as empresas queiram que o profissional supere às suas expectativas; dêem resultados. Mas o que questiono é: será que vale a pena se matar a qualquer preço?
Inúmeras pesquisas já chegaram à conclusão de que quanto mais pressionado e infeliz a pessoa se sente, pior é o seu desempenho. Lembro muito bem de uma capa da revista Época Negócios de julho de 2007 que falava das angústias da vida executiva e as razões porque o ambiente de trabalho se tornou fonte de infelicidade de diretores e presidentes - estudo da professora Betania Tanure, da Fundação Dom Cabral, mostrou na ocasião que 84% dos CEOs eram infelizes.
Ou seja, a sensação de quem respira o trabalho o tempo todo produz mais e melhor é temporária. Ninguém tem estômago suficiente para aguentar por muito tempo. Vamos analisar os fatos. O momento atual provoca a seguinte combinação perversa: gente demais para vagas de menos. Cenário altamente desfavorável para o profissional que enfrenta o achatamento da remuneração e o aumento do grau de exigência das empresas em relação aos funcionários.
Resultado, surge um embate dessas duas forças antagônicas, em que, de um lado há a cobrança das empresas, e de outro as insatisfações dos funcionários. Ambiente propício para a desmotivação das pessoas, que acaba refletindo na qualidade dos produtos produzidos e aí assistimos a uma reação em cadeia. Com a queda na qualidade dos produtos - gerada pela falta de motivação para inovar das equipes -, as empresas passam a sofrer com a queda no ritmo dos negócios. Trocando em miúdos, o consumidor é quem acaba por protestar. Chamo isto de uma cadeia perversa de interrelacionamentos invisíveis com consequências no caixa das empresas. Atenção senhores CFOs!
Engana-se quem pensa que em situações difíceis, as pessoas conseguem mostrar seu talento, se superar, só porque se sentem ameaçadas e acham que correm o risco de perder seus empregos. É uma ilusão as empresas acharem que os resultados só sairão ao espremer mais e mais seus funcionários. Quando se é pressionado de tal forma que o nível de estresse vai às alturas, dificilmente se tem o melhor das pessoas. E a performance que, de início, parece ser uma das melhores dura pouco tempo. Um ambiente hostil é capaz de minar todo e qualquer benefício que o talento proporciona.
Os que me conhecem sabem da minha ojeriza por gurus que nunca trabalharam no ambiente corporativo o que não é o caso do Jack Welch. Mas, neste tema que estamos discutindo, tenho que discordar da sua opinião. Equilibrar a vida pessoal com o trabalho é de fundamental importância. Mesmo em um momento como esse de empregos e fortunas se evaporando. Só quem tem vida fora do trabalho consegue ser feliz e dar o melhor de si. E as empresas precisam ficar atentas em como estão agindo agora, porque elas é que correm de fato o risco de perder seus preciosos talentos quando o furacão passar. Ou será que elas acreditam que manterão pessoas infelizes e à beira de ataque de nervos quando o terremoto acabar?
Como você se sente submetido à pressão injustificada e desnecessária?




Você não tem de ceder!