16 de julho, 2009

Os perigos de “triturar” talentos em momentos de crise: a eterna batalha entre capital e trabalho

Dias atrás, uma grande amiga, que atua no mercado de consultoria, veio conversar comigo. Estava se sentindo acuada, sem saída, pressionada por todos os lados. Sem hora para sair do trabalho, passou a acumular mais trabalho nos fins de semana, deixando-a sem tempo para os filhos. Com os efeitos da crise, a empresa em que trabalha passou a cobrar ainda mais por resultados e, de contrapartida, reduziu seu salário.

Visivelmente esgotada, me perguntou o que fazer. Sabe que o momento não é um dos melhores e acredita que se não der mais o sangue corre o risco de levar o cartão vermelho. Está até com medo de tirar férias e quando voltar, ter sua cadeira ocupada por outra pessoa. Esse clima de medo e insegurança tem atingido muitas pessoas com quem encontro nos últimos meses.

Continuo surpreso diante das histórias que ouço e eis que, sem querer, pego a revista Exame sobre as maiores empresas no País. Lá encontro artigo do Jack Welch falando de uma postura que ele defendia há alguns anos voltando à cena: abdicar da vida pessoal e fazer mais do que o empregador espera do funcionário. É natural que as empresas queiram que o profissional supere às suas expectativas; dêem resultados. Mas o que questiono é: será que vale a pena se matar a qualquer preço?

Inúmeras pesquisas já chegaram à conclusão de que quanto mais pressionado e infeliz a pessoa se sente, pior é o seu desempenho. Lembro muito bem de uma capa da revista Época Negócios de julho de 2007 que falava das angústias da vida executiva e as razões porque o ambiente de trabalho se tornou fonte de infelicidade de diretores e presidentes - estudo da professora Betania Tanure, da Fundação Dom Cabral, mostrou na ocasião que 84% dos CEOs eram infelizes.

Ou seja, a sensação de quem respira o trabalho o tempo todo produz mais e melhor é temporária. Ninguém tem estômago suficiente para aguentar por muito tempo. Vamos analisar os fatos. O momento atual provoca a seguinte combinação perversa: gente demais para vagas de menos.  Cenário altamente desfavorável para o profissional que enfrenta o achatamento da remuneração e o aumento do grau de exigência das empresas em relação aos funcionários.

Resultado, surge um embate dessas duas forças antagônicas, em que, de um lado há a cobrança das empresas, e de outro as insatisfações dos funcionários. Ambiente propício para a desmotivação das pessoas, que acaba refletindo na qualidade dos produtos produzidos e aí assistimos a uma reação em cadeia. Com a queda na qualidade dos produtos - gerada pela falta de motivação para inovar das equipes -, as empresas passam a sofrer com a queda no ritmo dos negócios. Trocando em miúdos, o consumidor é quem acaba por protestar. Chamo isto de uma cadeia perversa de interrelacionamentos invisíveis com consequências no caixa das empresas. Atenção senhores CFOs!

Engana-se quem pensa que em situações difíceis, as pessoas conseguem mostrar seu talento, se superar, só porque se sentem ameaçadas e acham que correm o risco de perder seus empregos. É uma ilusão as empresas acharem que os resultados só sairão ao espremer mais e mais seus funcionários. Quando se é pressionado de tal forma que o nível de estresse vai às alturas, dificilmente se tem o melhor das pessoas. E a performance que, de início, parece ser uma das melhores dura pouco tempo. Um ambiente hostil é capaz de minar todo e qualquer benefício que o talento proporciona.

Os que me conhecem sabem da minha ojeriza por gurus que nunca trabalharam no ambiente corporativo o que não é o caso do Jack Welch. Mas, neste tema que estamos discutindo, tenho que discordar da sua opinião. Equilibrar a vida pessoal com o trabalho é de fundamental importância. Mesmo em um momento como esse de empregos e fortunas se evaporando. Só quem tem vida fora do trabalho consegue ser feliz e dar o melhor de si. E as empresas precisam ficar atentas em como estão agindo agora, porque elas é que correm de fato o risco de perder seus preciosos talentos quando o furacão passar. Ou será que elas acreditam que manterão pessoas infelizes e à beira de ataque de nervos quando o terremoto acabar?

Como você se sente submetido à pressão injustificada e desnecessária?

Categorias: [ Pessoas & Carreiras ]

8 Comentários

  1. Adriana Salles Gomes - 16 de julho de 2009 @ 8:46 pm

    E talvez o pior aspecto disso tudo, Julio, é que com essa pressão deixa de ser possível construir confiança. Lembrando que é com confiança que a inovação acontece (porque as pessoas não têm medo de errar, o que é uma das principais chaves para inovar); é com confiança que se ganha velocidade para executar a estratégia e para aproveitar oportunidades de mercado. Muitas empresas jogam isso na lata do lixo no momento do aperto. OK, mas é difícil reconstruir depois.

  2. Julio Sergio Cardozo - 17 de julho de 2009 @ 10:38 am

    Adriana, estou assustadíssimo com os relatos que me chegam a respeito das relações capital/trabalho. Conversando com um empresário português durante as férias, concluímos que tanto na Europa super desenvolvida quanto no Brasil nem tanto, tem-se a impressão que a escravidão nunca acabou, de fato. Hoje, em vez de dar casa rústica, camida ruim e trapos para vestir, os senhores do engenho dão salários miseráveis aos trabalhadores. A espoliação continua a mesma. Bem, a questão sexual também mudou, mas pouco. Agora, o assédio é mais sofisticado! Meu conselho? Resista e não aceite migalhas quando o seu talento faz a diferença. E precisamos voltar a conversar sobre o valor justo para o trabalho intelectual. Os jornalistas estão muito deprimidos e pacíficos. Reajam!

  3. Rodrigo - 17 de julho de 2009 @ 1:21 pm

    Júlio, sempre chego a conclusão que essa é uma via de mão dupla. As organizações querem sim, tirar a maior quantidade possível de sangue do executivo. Mas do outro lado, existe um certo fetiche, uma certa competição o executivo em se sentir essencial. Além disso, todos querem uma vida mais saudável, mais próxima da família, com mais qualidade, mas quase nenhum está disposto a pagar o preço que isso exige. Em muitos casos, o exeutivo ganha muito mais do que precisa para viver muito bem. Mas reduzir um pouco significa não andar mais de Land Rover, nem colocar os filhos no colégio trilingue.
    Uma vida mais simples exige adaptações na empresa, e no executivo. Abraço!

  4. Julio Sergio Cardozo - 17 de julho de 2009 @ 3:36 pm

    Rodrigo, este é o grande desafio. Muitos executivos consideram que ganhar um montão de dinheiro significa ter, consequentemente, qualidade de vida. Nada é mais falso. E digo isto de cadeira, após mais de 30 anos como executivo de multinacional. O mais importante na vida do executivo é o seu histórico de realizações, a lista de ações, iniciativas de sua autoria que fizeram a diferença para a empresa. Chamo isto de marca registrada da competência. Você me deu uma idéia bacana para futuro blog que, aliás, poderia ter o seguinte título: “Grana é bom. Fazer história é melhor. A combinação dos dois, o édem”. Valeu. Abs.

  5. Andrea Giardino - 17 de julho de 2009 @ 5:54 pm

    Pois é, mas essa guerra por talentos é algo novo. As empresas sempre procuraram tirar o sangue a todo e qualquer preço. E no fim, muitas vezes, o prêmio é o cartão vermelho. Não é à toa que as pessoas estão tornando-se donas das próprias carreiras. As empresas nos levaram a isso, afinal, somos cada vez mais descartáveis.

  6. Julio Sergio Cardozo - 17 de julho de 2009 @ 6:08 pm

    Talvez seja assim mesmo. Mas creio que, generalizações à parte, há uma boa quantidade de empresas que reconhecem o valor do talento. Aliás, não seria bom cunhar um conceito para “talento”? Ofereço o seguinte conceito, para iniciar o processo criativo dos nossos internautas: “talento é aquela capacidade inata que poucos têm para ir muito além do óbvio, criando soluções simples e eficázes. Que não se conforma apenas em repetir o que já deu certo, mas inovando com inteligência e persistência”.

  7. Marco Pontes - 18 de julho de 2009 @ 12:51 pm

    É um fato que a relação entre capital e trabalho esta passando por um processo de profunda transformação por conta da crise financeira que tomou conta da economia global. É preocupante e às vezes assustador o atual estágio em que nos encontramos para lidar com determinadas situações, seja na qualidade de executivo que somos sob a perspectiva pessoal ou na condição de gestor responsável por garantir a sobrevivência da empresa e da posição na organização. Ainda, iremos assistir os desdobramentos dessa crise por algum tempo. Além dessas preocupações mais imediatas, receio que mais do que perder receita ou ter que renegociar condições salarias, temo pela distorções e perda de valores que, inevitavelmente atingirá as organizações, quando a situação se reverter, pois a crise não permanecerá para sempre. Conquistas inequívocas obtidas ao longo das últimas décadas estão sendo colocadas em xeque às vezes por pricipitação, advindas do imediatismo e outras vezes por dificuldade de visão de médio e longo prazo. Enfatizo, especialmente em relação a valores, tais como: confiança, lealdade e ética.

    Caro Júlio, em tempos benfazejos, tais valores são fáceis de administrar, mas em tempos de crise é que são colocados à prova. Como afirmei em um artigo que escrevi, recentemente ao comentar à crise financeira que abalou a base da economia global. Da mesma forma que foi fácil falar em auto-regulamentação do mercado em tempos fáceis, mas em tempos difíceis, a fé da auto-regulamentação do mercado se foi. Nem Margareth Tatcher ou Reegan estão vivos para presenciar os excessos cometidos, mas todos nós, certamente seremos testemunhas da roda de cadeiras que certamente ocorrerá nas organizações que não souberem administrar esses momentos de crise. A perda de profissionais chaves e de talentos será inevitável, mas isso o mercado,saberá contornar tal qual ocorre quando se armazena melancias em um caminhão. Ao primeiro movimento do caminhão as melancias se encaixam. Teremos mortos e feridos e um novo referencial nas relações de trabalho. Alguns ganharão outros perderão como é natural, mas sobretudo espero que tenhamos aprendido a lição. Em tempo, não sou contra a auto-regulamentação dos mercados. Parabéns pela lucidez do artigo.

  8. Sergio Antonio Meneghetti - 21 de julho de 2009 @ 1:01 pm

    Boa tarde Julio Sergio!
    Existem ações em momentos de crise que devem ser tomadas, demitir por exemplo é uma saída, porem até que ponto? e quem deve ser colocado para fora? Aí vai do talento do gestor e do RH, saber identificar quem faz a coisa acontecer é primordial, pois pode-se jogar pela janela aquele talento que faz o dinheiro aparecer, este profissional pode estar em uma lista numérica cascateada por quem não sabe quem é quem. Economiza-se neste momento, sobrecarrega quem ficou, as vezes entrega o ouro pro bandido, e deixa de ganhar milhões, porque uma boa idéia faz a diferença.
    A empresa não pune ninguém e muito menos faz sucesso, mas seus comandantes o fazem. Tudo é uma questão de sabedoria e não somente de conhecimento e inteligência.
    Resumindo: “Profissional talentoso não é custo, é gerador de lucros”
    Para quem está no tubilhão profissional segue uma dica:
    O mais importante não é “ter” para viver e sim viver para “ser”.
    Boa sorte a todos.

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Prof. Livre-docente Julio Sergio Cardozo

Consultor em gestão de negócios, conferencista, autor de livros e artigos e professor livre-docente em controladoria e finanças.

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