28 de agosto, 2009

A mulher está liderando: isso é bom ou ruim?

Rosana Rossoni, 40 anos, dois filhos, sem diploma universitário, cheia de ideias criativas sentiu na pele a arrogância desmedida de quem está no poder. Só que , ao contrário do que poderia imaginar, essa postura condenável não veio de um chefe homem, mas de uma mulher. Viu alguém de fora - muito mais jovem e com vários canudos debaixo do braço - assumir um posto acima do seu, empregando um estilo implacável, ao lhe dizer logo de cara: “Você não está aqui para pensar e sim pra fazer”.

Ao ouvir essa história recentemente fiquei perplexo. Nada contra alguém mais jovem e preparada chegar tão cedo ao poder, muito menos sendo mulher. Minha indignação se deve apenas à postura arrogante que vi por anos e anos em minha longa trajetória se repetir por uma mulher. Comecei a conversar com outras tantas amigas que só reforçam o quadro da arrogância por parte da mulher quando ascende ao poder. Será que por terem sido tão discriminadas, acham que ao chegar lá precisam se impor por meio da opressão, forma de liderança que sempre combateram?

Claro que, tradicionalmente, a mulher vem sendo discriminada, desde os idos da história. Cenário que não mudou com o tempo. A discriminação continua presente nas empresas, embora seja oculta, velada. Quantas mulheres estão no poder? É fato que elas são maioria no ambiente de trabalho, mas minoria em cargos de liderança. Um contrassenso se olharmos para o que as empresas pregam quando dizem que têm uma política de diversidade - discurso para inglês ver e imprimir uma imagem de que são “boazinhas”.

No entanto, vejo todo o esforço na conquista de um espaço que lhes é mais do que merecido - quem não se lembra do memorável episódio da queima de sutiãs em plena praça pública? - se transformar em um instrumento de força, opressão e até mesmo de um poder cego, capaz de derrubar tudo e a todos que cruzarem seus caminhos.

Infelizmente, esse mau uso do poder que tanto almejaram acaba levando-as à rejeição, pondo em risco as suas conquistas. Muitas ainda não se acostumaram com o poder e acreditam que só por meio da força - característica que sempre condenaram nos homens, mas acabam replicando o mesmo modelo quando chegam ao topo - conseguem impor a sua liderança.  

As verdadeiras líderes precisam, na verdade, despertar para essa questão fundamental para continuarem na luta pelo seu espaço. Meninas, não se esqueçam da força que vocês têm se souberem usar e abusar das poderosas armas que são tão peculiares à natureza feminina, como flexibilidade, capacidade de atuar sobre várias frentes, sensibilidade, papel multidisciplinar, intuição e poder de persuasão.

Sabemos o quanto lhes custa caro chegar ao topo. Estar no poder é sinônimo de abdicar da vida pessoal e por isso tantos talentos femininos preferem sucumbir e voltar para casa, ou mesmo desprezam convites para serem promovidas em detrimento de uma vida melhor com os filhos, com o marido. A chave para o sucesso - seja ele qual for - está em suas mãos. O que fazer com tudo o que foi conquistado só depende de vocês. Por que, então, continuar replicando os mesmos padrões se brigaram tanto por mudanças?

É melhor continuar sendo mulher, ascender pelo talento e permanecer no poder pela competência. Sem arrogância desmedida.

Categorias: [ Pessoas & Carreiras ]

14 Comentários

  1. Marcelo - 28 de agosto de 2009 @ 11:15 am

    Julio,
    acho que você tocou em um ponto chave : Quando a mulher chega ao poder. O problema que aí ela quer competir com o homem e deixa de ser mulher e olhar para as habilidades de mulher que a levaram aonde ela chegou.

    Acho que a questão não se resume a se a mulher como líder é bom ou não. O importante são as características que são encontradas com MAIS FREQUÊNCIA nas mulheres como a sensibilidade, o carinho, atenção, … Não que os homens não possam desenvolver essas características, mas é mais dificil encontra-la nos homens. De qualquer forma, acho que o importante é buscarmos a diversidade.

    Abraços Rubro-negros.

  2. Sergio Antonio Meneghetti - 28 de agosto de 2009 @ 2:58 pm

    Júlio, tem uma literatura importante para este assunto, “A Revolução dos Bichos”, a mudança sempre é importante, principalmente com equilibrio e justiça.
    Comprometimento

    Se você quer comprometimento
    Sempre atue com sabedoria e liderança
    Você terá com subordinados alinhamento
    E pela moral conquistará sua confiança.

    Sergio Antonio Meneghetti 19/08/2009

  3. Auri - 28 de agosto de 2009 @ 4:13 pm

    Julio, me desculpe discordar do seu post, mas voce utilizou a figura correta, com o texto errado. Vamos aos fatos:
    Voce coloca a figura do filme O Diabo veste Prada (The Devil wears Prada). Vamos lembrar só da editora chefe da revista e da secretária, ok?!
    No filme, a editora humilha (literalmente, e por várias vezes) a secretária. Comportamento semelhante ao colocado no post. Isso é repetido diversas vezes. Manda ela realizar coisas impossíveis, entre outros absurdos.
    No final do filme, a secretária aparece como uma excelente profissional, etc, etc.
    Sejamos sinceros. Se não fosse pela “liderança” da editora chefe, a secretária teria se saído tão bem? Teria sido uma excelente profissional que se tornou? teria conhecido mundo que conheceu?? É claro que não!
    Ela se tornou o que se tornou porque foi provocada, instigada, desafiada, levada ao seu limite. E é isso que muitas vezes falta nas empresas: Sair do politicamente correto.
    Liderança não tem lá muito a ver com carisma não! O carisma ajuda, mas não é tudo. Posso citar alguns exemplos para elucidar: Carlos Ghons, Maurício Botelho, o gênio indomável Jack Welch, entre outros.

    Abraços.

  4. Julio Sergio Cardozo - 28 de agosto de 2009 @ 6:24 pm

    Auri, o objetivo do post é chamar atenção para dois fatos muito sérios: (i)continua havendo fortes obstáculos a impedir o progresso profissional da mulher, independentemente de sua competência. E isto é um absurdo; (ii)a mulher quando chega lá no topo, quer mostrar que é tão competente ou mais que os homens e começa a mudar as suas atitudes, tornando-se excessivamente autoritária. Claro que há exceções, mas me preocupa o aumento da incidência de casos, inclusive identificados por meio de entrevistas e pesquisas que fazemos regularmente. Devemos combater as duas coisas: o obstáculo ao progresso feminino e o autoritarismo. Sou muito radical nos dois temas e trabalhei fortemente e com sucesso o assunto no meu último posto executivo. Não creio, Auri que eu e você estejamos em desacordo no conteto do post. Quanto à figura que escolhemos para ilustrar o post, por favor entenda que ela é meramente ilustrativa e foi escolhida por ser uma imagem conhecida. Você gostaria de sugerir uma outra figura para melhor ilustrar os objetivos do post? Grato mais uma vez por seus oportunos comentários.

  5. Julio Sergio - 28 de agosto de 2009 @ 6:38 pm

    Sergio, como sempre você encontra graça e poesia para deixar o seu recado. Muito bom.

  6. Julio Sergio Cardozo - 30 de agosto de 2009 @ 6:55 pm

    Marcelão, é isto mesmo. As empresas estão fazendo um esforço sincero de inclusão para aumentar a diversidade de gênero, raça e preferência sexual. As mulheres têm todas as qualidades para ascender rapidamente nas corporações e graças às suas especificidades, como você bem ressaltou, dão inestimável contribuição para a perpetuação do negócio. Agora, precisam continuar sendo mulheres e não clones de homens arrogantes. Preocupa-me a tendência já estatisticamente relevante de mulheres que chegaram lá e se tornaram autoritárias ao extremo. Aí, vai por água abaixo todo esforço de inclusão e diversidade.
    Sobre o nosso amado Mengão, há ótima matéria no O Globo de hoje, domingo 30/08, apontando as razões pelas quais os times cariocas estão tão mal no contexto: falta de profissionalismo e de ética. Abraços.

  7. Andrea Giardino - 30 de agosto de 2009 @ 8:41 pm

    Preciso concordar com alguns pontos do artigo Julio. Já tive chefes homens e mulheres. Em ambos os casos, pude percerber uma insegurança impressionante. Mas as mulheres ainda não acertaram a mão como poderiam. Nós que sempre reclamamos do poder masculino opressor, discriminatórios acabamos por replicar o mesmo estilo de gestão. Muitas vezes até pior. Acho que a mulher pode chegar com mais peso no topo, se parar de querer se defender o tempo todo. É claro que incomodamos muitos homens que não aceitam ter mulheres como chefes, mas há várias formas de impor sutilmente sua força.
    Andrea

  8. Auri - 31 de agosto de 2009 @ 7:44 am

    Júlio, desculpe a demora em responder. No final de semana não tive nem tempo de acessar meus e-mails.

    Vou te dizer o mesmo que disse ao Marcelão, num dos posts dele. Esse tipo de post é ótimo, pois desperta nos leitores a capacidade de raciocínio, de reflexão! Essa característica é falha em muitos blogs. Também concordo com alguns de seus argumentos. Só acho que não pode/deve haver complascência.

    Não sei se já conhece, mas um blog que eu adoro (juntamente com o da HSM) é o do Clemente Nóbrega (www.clementenobrega.com.br). Caso queira, dê uma olhada.

    Abraços.

  9. Gleice Sanches - 31 de agosto de 2009 @ 11:13 am

    Julio,
    não vejo a arrogância do poder como uma questão de gênero, há pessoas no poder extremamente arrogantes, tanto homens quanto mulheres. Gostaria inclusive de mencionar que a presidente da multinacional em que trabalho não se encaixa em nenhuma das características e/ou situações levantadas em seu artigo, muito pelo contrário, ela é infinitamente mais simpática, acessível e justa do que muitos superiores homens com quem trabalhei.

  10. Julio Sergio Cardozo - 1 de setembro de 2009 @ 12:10 pm

    Auri, que bom que estamos na mesma página. Há comentários também em http://www.cardozo-group.com a respeito deste blog que não estão aqui, no super portal HSM. E o debate continua. Abs.

  11. Julio Sergio - 1 de setembro de 2009 @ 12:27 pm

    Andrea, certas profissões hoje em dia têm mais mulheres do que homens e o que me preocupa é ver casos crescentes de falta de preparo psicológico das mulheres para assumir posições de destaque. Logo as mulheres que em vários aspectos são mais preparadas que os homens para liderar.

  12. Julio Sergio - 1 de setembro de 2009 @ 12:32 pm

    Gleicie, também conheço várias mulheres que ascenderam e não se tornaram arrogantes, autoritárias. Ocorre que pesquisas já apontam ocorrências estatisticamente relevantes de mulheres que mudaram completamente após a ascensão. Cabe-nos ficar alerta e orientar para que as mulheres não percam o que conquistaram com tanto trabalho e sofrimento. Há lugar para ambos os gêneros. Não há lugar para a arrogância e autoritarismo de qualquer gênero. Obrigado por compartilhar o seu bom exemplo.

  13. Auri - 3 de setembro de 2009 @ 8:32 am

    Júlio, visitei o site. É o seu??

    Se for, prazer em conhecê-lo “pessoalmente”, isto é, através da foto. Vamos continuar compartilhando ideias e pensamentos… espero sempre poder discordar de voce!! rsrs mas é só para gerar novos pontos de vista, ok!!??

    Abraços!

  14. Julio Sergio Cardozo - 4 de setembro de 2009 @ 7:19 pm

    É o meu site, sim. Nossos blogs também são postados em outros sites e creio que temos uma quantidade razoável de visitas. É por esta razão - razoável quantidade de visitas - que os comentários são importantes e bem vindos. Contribui para a disseminação de pensamentos, reflexões e opiniões. Discordâncias educadas, como as suas, são verdadeiramente gratificantes e jamais deixarei de levá-las em consideração. Faça como o Johnny Walker: “continue comentando”. Abraços.

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Prof. Livre-docente Julio Sergio Cardozo

Consultor em gestão de negócios, conferencista, autor de livros e artigos e professor livre-docente em controladoria e finanças.

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