8 de março, 2010

Você está preparado para ter um chefe mais jovem do que você?

 

Hoje pela manhã recebi o telefonema de um grande amigo que assumiu a presidência de importante grupo de varejo do país. Uma notícia que até então poderia ser comum se não fosse o fato dele atingir o topo com apenas 36 anos. Seu maior desafio, aliás, tem sido comandar uma equipe de executivos que já beiram os 45 ou mais.

 “Logo que entrei enfrentei minha primeira prova de fogo. Um deles quis testar minha competência na hora de tomar uma decisão delicada”, confessou-me. Sua experiência, entretanto, não é e nem será a única. Cada vez mais cedo os profissionais vêm conquistando postos de comando, ao mesmo tempo em que parte da geração Y começa a experimentar o gostinho do poder. Dados da consultoria Hay Group apontam que no Brasil cerca de 20% de jovens com menos de 30 anos já ocupam cargos de chefia.

Fenômeno que vai impactar de forma irreversível a relação entre chefes e subordinados. Aí faço as seguintes perguntas: Será que um chefe jovem está preparado para liderar equipes mais velhas? Ou até que ponto um profissional com invejável bagagem no currículo aceita ser comandado por quem ainda não viu o filme todo?

Não há dúvidas que poucos terão a coragem de assumir o quanto se sentem desconfortáveis.  Ouso dizer que embora muitos afirmem não ver problemas, eles serão velados, provocando atritos irreparáveis. Pode até rolar uma discreta sabotagem.

Lembro-me de outro amigo executivo - na época com quase 50 anos - que pediu demissão quando soube que o novo diretor da sua área tinha 17 anos a menos que ele. Mesmo sem ter para onde ir, preferiu largar um emprego bacana por temer futuros problemas.

Uma pesquisa realizada pela consultoria Lens & Minarelli há alguns anos, envolvendo 250 executivos, mostrou que mais da metade já teve um chefe mais jovem. Desse total, 63,9% revelou ter enfrentado algum tipo de dificuldade de relacionamento.

Nada contra jovens talentos estarem assumindo posições de chefia, muito pelo contrário. Mas é preciso reconhecer que uma grande maioria não possui maturidade suficiente para lidar com situações de extremo grau de estresse, contam com uma carga emocional adversa e ansiedade à flor da pele que os impede ter discernimento do que é bom senso (nas clínicas de planejamento da vida há relatos de CEO jovens que se refugiam no banheiro para chorar de desespero!).

Entre as diversas credenciais necessárias para um verdadeiro líder está exatamente o bom senso adquirido por meio da experiência.  O chefe jovem tem pouca milhagem e, portanto, alguns mostram uma visão equivocada do que é preciso decidir rápido. Já ouvi alguns talentos da geração Y dizer: “Os mais velhos são muito lentos para decidir, ficam remoendo o assunto e perdem o “timing” por conta disso”. Infelizmente, acabam confundindo rapidez com ponderação e não raro erram feio em suas decisões.

Claro que toda regra tem sua exceção. Quando encontramos chefes jovens dotados de grandes habilidades para tomar decisões, precisamos tirar o chapéu.  A estrada é longa e o desafio para aqueles que estão experimentando o poder tão cedo consiste em ter coragem e humildade necessárias para entender que quanto mais se aprende menos se sabe.

A imaturidade leva à arrogância, autoritarismo, descontrole, insegurança, impaciência e competitividade exarcebada. Aspectos que precisam ser olhados com cuidado por quem está no início da vida profissional. Se você faz parte da geração Y precisa se preparar para ocupar cargo de chefia e comandar os mais velhos.

Já para quem acumula uma bela trajetória profissional, saiba lidar com esse novo cenário que desponta. Há pontos positivos de uma liderança jovem que somados à sabedoria de executivos tarimbados resultarão em um modelo de gestão equilibrado. Todos sairão ganhando.

 

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13 Comentários

  1. Sergio Antonio Meneghetti - 8 de março de 2010 @ 4:42 pm

    Boa tarde Júlio!
    É a minha situação, tenho uma chefe mais jovem, o que procurei fazer foi conversar mostrando-lhe com sinceridade seus pontos negativos.
    Outra atitude foi oferecer a minha experiência para colaborar no que fosse necessário.
    Hoje temos uma boa relação e o trabalho se desenvolve muito bem.
    Cada um possui sua realidade e para cada mal existe um remédio de acordo.
    Se o topo não foi minha conquista, acredito que não fiz por merecê-lo ou não tinha os requisitos para tal.
    É importante lembrar que acima da nossa opinião pessoal existe a empresa, e toda energia tem que ser canalizada para o propósito cumum.
    Para O jovem CEO fica o recado: todos tem seu tempo, e o resultado maior será fruto do que plantar no agora.

    Comprometimento

    Se você quer comprometimento
    Sempre atue com sabedoria e liderança
    Você terá com subordinados alinhamento
    E pela moral conquistará sua confiança.

    sds Sergio

  2. Marcos de Paula - 8 de março de 2010 @ 5:31 pm

    Pela lógica cronológica, considerando a aposentadoria retardada x a inserção da geração Y no mercado de trabalho, isso será inevitável.
    Essa geração, pelo seu grande vínculo com a informática, é imediatista e tende a sofrer de problemas psquicos pela convivência com o ritmo dos mais velhos (nunca lentos; apenas mais analíticos).
    Concordo com sua análise final, de que é possível uma gestão equilibrada. Com certeza, chegando-se a esse patamar, o ganho para todos será líquido e certo.

  3. Thiago de Assis - 9 de março de 2010 @ 1:14 am

    Caro Júlio,

    Em sua opinião quais são os benefícios que uma jovem liderança traz a mesa?
    Seu post me pareceu exarcebar apenas os aspectos negativos.

    Além disso, como o jovem líder deve se portar diante da desconfiança / desconforto de seus liderados?

    Abs

  4. Eryka - 9 de março de 2010 @ 8:25 am

    Bom dia. Essa matéria tem a ver com situações que ocorrem no dia-a-dia do meu trabalho.

    Tenho 21 anos, sou formada em Pedagogia e curso MBA em Recursos Humanos. Comecei a ministrar aulas de Inglês com 15 anos e desde essa época, já sofria com o preconceito. Os meus alunos eram pessoas mais maduras, em questão da idade, e mais experientes do que eu. Lembro que na época uma aluna me disse que não acreditava na metodologia da escola pelo fato de colocar alguém tão jovem para ensiná-la! Hoje ocupo um cargo de liderança na empresa e ainda sofro com o preconceito. A maioria dos meus liderados são mais velhos do que eu. Sou sub-coordenadora e treinadora pedagógica. Durante um treinamento, um dos meus liderados me chamou de “pirralha”! Mas isso não foi o bastante para me fazer desistir.

    Acredito que a força de vontade e a humildade nos tornam maduros para poder enfrentar os desafios, e além disso, aprender não discerne idade. O meu futuro depende daquilo que eu plantar hoje e agora.

  5. Marco Novaes - 9 de março de 2010 @ 5:52 pm

    Boa tarde.

    Como o grande gestor em meados dos anos 50 Mr. Andrew Carnegie disse que desejava que fosse gravado na lápide de seu túmulo: ” Aqui jaz um homem que sabia como colocar a seu serviço homens mais capazes do que ele próprio.”

    O importante é poder contar com as pessoas certas independetemente da idade.
    No fim das contas o foco em um momento delicado é a correta decisão.

    A correta decisão é importante e a idade, em minha opinião, pouco importa.

    Um abraço à todos,
    Marco Novaes

  6. Fabio - 12 de março de 2010 @ 11:20 am

    Olá, tenho 26 anos e exerço um cargo chefia na minha empresa a 4 anos o que posso dizer é que no começo foi difícil pois foi provido de dentro do setor, e colegas que estavam no mesmo nível que eu e eram mais velhos não receberam a oportunidade que eu tive, então pra mim o difícil foi o processo de formação de liderança, até os meus colegas me enxergarem como líder… O começo foi bem difícil, mas hoje em dia é bem tranqüilo… É claro que algumas vezes alguém tenta me testar… Mas isso é do cotidiano…
    Ótimo artigo.
    Um abraço a todos.

  7. Julio Sergio Cardozo - 12 de março de 2010 @ 5:25 pm

    Marcos, o equilíbrio entre as diversas gerações que convivem no mesmo ambiente de trabalho é o meu sonho. Tenho trabalhado com afinco no tema, conversado com gestores de pessoas, gerentes de RH, CEO e os jovens promissores da geração Y. O resultado dessas conversas é estimulante que me leva a crer que dias melhores virão, com claros benefícios para todos (embora as corporações sejam as maiores beneficiadas).

  8. Julio Sergio Cardozo - 12 de março de 2010 @ 5:36 pm

    Thiago, os maiores benefícios de uma liderança jovem são: (i) estimulo ao contínuo aperfeiçoamento dos mais experientes para competir de igual para igual; (ii) trazer energia renovada para as corporações, agilizando o processo de tomada de decisões e (iii)garra, aumento da vontade de vencer. Não ressalto pontos negativos. Chamo apenas atenção para os desafios. Veja o blog como um estimulo ao debate pois o tema é relevante e atual, que não está merecendo a atenção devida por parte dos gestores de RH. Quando o jovem executivo sentir que há desconfiança quanto ao seu talento e capacidade de decidir, o melhor conselho é buscar o diálogo. Posso assegurar que funciona e todos saem ganhando. Obrigado por compartilhar suas reflexões.

  9. Julio Sergio Cardozo - 12 de março de 2010 @ 5:38 pm

    Eryka, ótimo comentário. Você demonstra ser um exemplo de obstinação. A pior fase já passou.

  10. Julio Sergio Cardozo - 12 de março de 2010 @ 5:40 pm

    Marcos, palavras sábias. A idade - seja ela provecta ou precoce - no final das contas o que realmente conta é a competência por conta do talento.

  11. Julio Sergio Cardozo - 12 de março de 2010 @ 5:42 pm

    Fabio, obrigado por compartilhar o seu exemplo. Felizmente, você não é um caso isolado.

  12. Gustavo Loss - 19 de março de 2010 @ 2:00 pm

    Júlio,

    Eu já estive na situação de liderar pessoas mais velhas, e tenho certeza que em algum momento serei liderado por alguém mais novo. Um aprendizado importante é que não se pode ignorar o fato, fingir que é a situação mais normal do mundo e não tem problema nenhum. O chefe mais jovem deve encarar como um desafio adicional lidar com esta questão da idade/experiência, e por outro lado a equipe mais velha tem que dar um voto de confiança. Se houver arrogância em excesso de qualquer lado a relação fica muito prejudicada.

    É comum confundir experiência com anos de trabalho, porém uma pessoa pode estar no mercado há 5 anos aprendendo e se desenvolvendo, enquanto outra aprendeu durante 2 anos depois se acomodou e ficou repetindo tudo nos próximos 8. Neste caso 5 é mais que 10 !! Também se confunde maturidade com anos de idade, conheço jovens de 22 anos com atitude que geralmente encontramos em pessoas com 30. O risco aí é esta mesma pessoa quando chega aos 30 achar que não tem mais que evoluir.

    Parabéns pelo artigo, me inspirou a escrever um texto eu meu blog sobre o tema.

    Abraços.

  13. Diego Prado - 22 de março de 2010 @ 10:34 am

    Esta é uma discussão sobre gestão interessante. Podiamos fazer a analogia com chefes mulheres, hoje amplamente em postos de chefia e liderança. Toda mudança gera uma força de resistência, no entanto as forças tendem sempre ao equilibrio. Falar que jovens CEO´s vão chorar no banheiro e profissionais maduros não conseguem interagir no mundo digital ou tomar resolução rápidas me parece exagerado. Precisamos de bons profissionais jovens e maduros. Acredito que o jovem líder deve aproveitar a vantagem de ter uma equipe experiente para tomar boas decisões e os subordinados devem aproveitar a visão do jovem líder. Sabendo qual é o seu papel dentro da corporação isto diminuirá os conflitos, pois me parece muito mais egos conflitantes do que outra coisa. Caso seja um soldado vá para o campo de batalha, caso seja o general planeja as batalhas para a vitória do seu exército.

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Prof. Livre-docente Julio Sergio Cardozo

Consultor em gestão de negócios, conferencista, autor de livros e artigos e professor livre-docente em controladoria e finanças.

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