8 de julho, 2010

Funcionários que destroem a imagem da empresa

As empresas investem fortunas em treinamento, tecnologia de ponta, gastam verbas milionárias em publicidade para construir ou fortalecer uma marca e vem um funcionário, que não ganha mais do que 60 mil euros por ano, e destrói a imagem da empresa.

Em viagem recente que fiz à Paris fui maltratado pela aeromoça da companhia aérea que, visivelmente, estava contrariada com o que faz.

Só porque, ao terminar de comer o sanduíche, juntei na embalagem papéis usados ela se aborreceu de uma forma que pensei estar cometendo o mais terrível dos crimes e me disse aumentando a voz, quase esbravejando: “Isso aqui é como um lego em que tudo se encaixa. Da forma como o senhor fez, vai impedir que a embalagem retorne ao escaninho”.

Surpreso por tamanha grosseria na forma de falar, mal tive tempo de argumentar que ela estava confundindo minha gentileza. Ela achou que minha boa vontade - nem tinha como saber as regras da companhia - era um obstáculo para a “eficiência” de seu trabalho.  Um absurdo, convenhamos. Não se importou um minuto sequer em ser cortês com um valioso passageiro, que já voou mais de dois milhões de milhas (fato que a companhia e a tripulação sabem antecipadamente).

Outra experiência desagradável tenho tido com gerentes de bancos. Mesmo sendo considerado cliente vip, cinco estrelas, quando preciso resolver algo importante e vou à agência, nunca encontro um gerente na sua mesa. Se ligo, então, posso ter a certeza que tomarei um “chá de cadeira” de, no mínimo 24 horas para que alguém me retorne.

A população, aliás, é uma das mais penalizadas quando precisa ligar no call center ou no 0800. A ligação cai, o atendente virtual te faz esperar horas e horas no telefone; um verdadeiro desrespeito. Quando me lembro dos episódios vividos nos aeroportos durante o caos aéreo é que continuo sem entender como as empresas querem conquistar espaço se arranham sua imagem sem qualquer ação para reverter quadros como esses.

Há alguns meses, uma amiga contou que o filho de um ex-chefe voltava sozinho para o Rio de Janeiro e ninguém confirmava quanto  tempo o voo iria atrasar. Sem celular - porque na sala onde as crianças ficavam não funcionava telefone móvel -, o menino ficou praticamente incomunicável. Até que mudaram o voo do garoto que ao chegar ao destino, não era encontrado pela mãe.

Ela, desesperada, ao ver que o voo chegara, mas sem o filho, não sabia o que fazer. O pessoal do balcão dizendo que ele desembarcara e nada dele. Pior ainda é a central ligar para a casa do pai querendo saber se o filho teria embarcado. Como pode uma situação desse tipo acontecer em uma companhia aérea respeitada?

Os erros e tropeços são incontáveis e nós consumidores somos tratados com desdém. Vejo uma briga insana entre as empresas para se destacarem nos inúmeros rankings que existem por aí; das maiores companhias abertas, das empresas mais admiradas, das melhores para se trabalhar. No final, contratam gente que além de despreparadas não entendem ou não conhecem o esforço que seus empregadores fazem para ter uma imagem positiva no mercado.

Quem paga o pato? Eu, você, todos nós, consumidores tratados como idiotas convenientes.

Categorias: [ Pessoas & Carreiras ]

14 Comentários

  1. Jordano Santos Cerqueira - 9 de julho de 2010 @ 9:05 am

    Se você consumidor continuar a protelar. A divulgar o nome da empresa na internet. A dar nome aos bois. A cobrar mais. Acredito que este quadro muda. Sua crítica foi boa. Mas faltou o nome dos Bois.

  2. Carol - 9 de julho de 2010 @ 12:12 pm

    Nossa Julio, já passei por algumas situações parecidas…
    Confesso que fico indignada com o atendimento ruim, as vezes eu deixo a situação passar para não estragar o resto do meu dia, mas tem vezes que eu procuro os meus diretos… falo com o gerente, procuro algum canal competente (Tipo Ouvidoria – trata de situações graves), enfim… faço qualquer coisa que possa sinalizar a minha insatisfação e exijo um retrato da empresa.
    Mas é uma situação bem complicada, há empresas que só pensam em vender seu produto e não necessariamente “encantar” o cliente e só percebemos isso depois de adquirir o produto.

  3. Anderson Meirelles - 9 de julho de 2010 @ 12:27 pm

    Perfeito artigo,Parabens!!! Mas da proxima vez faz a imagem do “dono” acabando a imagem de sua empresa diante dos clientes internos ok???

    Abraço!!!

  4. Edson Melo de Souza - 9 de julho de 2010 @ 12:29 pm

    Prezado Julio Sergio, PARABÉNS! Fantástica sua abordagem.

    Gostaria de usar a sua sapiência para fazer uma link criticando alguns artigos que pulverizam os talentos corporativos, pois percebo que a cada dia faltam talentos nos RH´s. Estes usam métricas, técnicas e outros artifícios para filtrarem potenciais talentos, mas pelo que percebo só ficam os ruins. Queria falar sobre o atendimento bancário e seus gerentes, mas você disse tudo.

    Precisamos de uma Revolução ao Atendimento.

  5. Administrologia - 9 de julho de 2010 @ 5:08 pm

    De fato, é lamentável a falta de respeito e preparo no atendimento. Recentemente, passei por uma situação parecida: ao comprar uma passagem de ônibus para um determinado destino, a moça que me vendeu estava visivelmente de mau-humor e me respondia de maneira “atravessada” e em monossílabos. Impressionante!!! No entanto, me pergunto: isso é erro no recrutamento e seleção ou mais um problema de treinamento e desenvolvimento? Sem descartar a possibilidade de problemas na organização dos processos (caso do serviço de telemarketing).

    Bruno Saavedra

  6. Daniel Micheloni - 10 de julho de 2010 @ 9:05 am

    Bom dia Julio,
    O sentimento de impotência que tenho de quando sou mal atendido é o mesmo que nas ocasiões que fui assaltado e de quando ouço algum escândalo com dinheiro público, achei que o tempo me tornaria mais calejado, mas estou mais arisco.
    Ontem mesmo, estava acompanhando uma encomenda feita a uma empresa de Campinas que seria entregue pelos Correios, mas no histórico de entregas constava por que por duas vezes foi feita uma tentativa de entrega e a minha empresa estava sem expediente. A pergunta que fica é? Será que foi feita essa tentativa? Ou simplesmente o motorista não estava com vontade de vir me fazer essa “visita”, por minha empresa está localizada perto de obras públicas o que dificulta um pouco os seu acesso. Hoje liguei para reclamar ao sac dos correios, e foram tantas as informações solicitadas que acabei desistindo por hora de reclamar. Nessas horas lembro do nariz de palhaço do professor Marins.

  7. Rogério Lázaro dos Santos - 11 de julho de 2010 @ 8:25 am

    Por trás de todo esse caos há uma realidade que raramente é abordada, pelo menos com a seriedade e atenção necessárias: o alto escalão das empresas não costuma dar as devidas ferramentas para que os funcionários “da ponta”, ou seja, aqueles que tem que enfrentar o cliente insatisfeito e furioso, possam lidar com situações criadas pela falta de preparo e planejanento da “alta direção”. Lógico que não se pode admitir grosserias contra um cliente. Mas este desrespeito nasceu lá na sala do Diretor!

  8. Fernando Miguel Silva Barros - 11 de julho de 2010 @ 9:24 am

    Os funcionários são a empresa e vice-versa. Cuidado ao contratar um funcionário é uma boa dica antes sair catando no mercado. Cuidar do psicológico dos mesmos é responsabilidade da empresa, principalmente as empresas que trabalham com o público, isso saíra bem mais barato que os investimentos em marketing para reestruturar sua imagem. É horrível ser tratado mal por alguém que trabalha para te servir, um sorriso no rosto e saber ouvir são essenciais para que o cliente se sinta bem.

  9. Hugo Leandro Venturini - 11 de julho de 2010 @ 12:26 pm

    Não há o que corrigir do texto, realmente é esta a situação. Mas você está abordando empresas aéreas e bancos, na condição de cliente VIP. Você não imagina a situação que enfrentam os usuários destes serviços e de outros que não estão enquadrados nesta nobre categoria.

  10. Alexandre Silva - 12 de julho de 2010 @ 10:03 am

    Professor Júlio, só posso dizer uma palavra sobre os relatos acima…lamentável.
    Forte Abraço,
    Alexandre Silva

  11. Raquel B. Carmo - 12 de julho de 2010 @ 7:04 pm

    Parabéns pelo artigo, pelas ocorrências descritas. Fico na torcida para que os empregadores do BRASIL leiam e possam rever as condições do processo de contratação/seleção (quem responde tecnicamente?)
    Pessoas infelizes, insatisfeitas prejudicam a si ao consumidor e a todo e qualquer investimento feito pelas organizações. Tiram a oportunidade de muitas talentosas, focadas, comprometidas, com projeto e perfil para suas funções, faltando-lhes a OPORTUNIDADE.
    Presidentes, Diretores, Supervisores,

  12. Paulo Rafael - 13 de julho de 2010 @ 6:02 am

    A “verdade” das Verdades. As Melhores empresas de …”tudo e qualquer coisa” são mesmo as piores para o consumidor.
    Recentemente passei por uma situação parecida numa companhia aérea Brasileira que diz que “a escolha da companhia é uma opção do cliente. obrigado, etc, etc” mas eu NUNCA a escolheria se não fosse a única a voar com um horário decente para a cidade onde ia. Aliás, já lá têem a minha reclamação…resta saber se vão atendê-la.

  13. Alan Mayck - 13 de julho de 2010 @ 9:01 am

    Caro Julio, seu artigo é uma grande verdade. Muitas empresas contratam pessoas sem preparo emocional para lidar com o público, havendo uma grande insatisfação dos clientes, creio eu que uma grande parte da culpa seja da falta de comprometimento destes funcionários com a empresa que trabalha, e acima de tudo não gostam do que fazem.

  14. Marta Imbelissieri - 27 de julho de 2010 @ 8:13 pm

    Caro Julio, seu artigo é bastante adequado aos dias de hoje. Sou empresária e dia desses tentei falar com uma colega/executiva de marketing que não conhecia numa empresa de peso no ramo imobiliário/shopping Center. Fiquei pasma ao passar pelo atendimento de sua assessora. Simplesmente absurda a falta de delicadeza, de respeito, de educação, etc. de uma funcionária que, no exercício de sua função, representa o executivo e a empresa enfim. Com essa experiência passei a checar melhor quem me representa ao telefone. Acabei chegando na literatura - temos até livros mencionando os prejuízos (de ordem financeira até) que o ego pode trazer para as empresas. Incrível, mas essa deficiência (a falta de entendimento de si mesmo) é considerada uma patologia até. Pior que essa constatação é que incorre nas empresas a todo o momento. Tudo a ver com o que seu artigo menciona. Realmente é preciso rever conceitos e prestar mais atenção na questão do atendimento, o que para muitos são meros detalhes.
    Abraços a todos

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Prof. Livre-docente Julio Sergio Cardozo

Consultor em gestão de negócios, conferencista, autor de livros e artigos e professor livre-docente em controladoria e finanças.

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