15 de julho, 2010

Vai uma nota de 100 dólares aí?

Recentemente, uma entrevista na revista Exame me chamou a atenção. Fiquei horrorizado com a maneira que o americano David Novak, presidente da rede Yum!, dona da Pizza Hut, usa para incentivar e motivar seus empregados. Chamado pela publicação de Silvio Santos do fast food, anda com o bolso cheio de dinheiro e a cada oportunidade dá uma nota de 100 dólares para premiar seu funcionário.

Isso, na verdade, é corrupção. É levar o funcionário humilde à situação de pedinte, que faz tudo para ganhar um trocadinho. Afinal, estamos diante de empregados, funcionários e colaboradores ou de feras domesticadas que se apresentam no circo, que se fizeram corretamente o que o domador ensinou, ganha um amendoim?

Não é isso que motiva um funcionário e sim o respeito, o reconhecimento ao seu trabalho, ao seu desempenho. O famoso agrado está lá no finalzinho da lista. Não seja um empregador que mais se parece com um domador de feras e, sim, um motivador.

Uma pesquisa feita pela Cia de Talentos no Brasil, na Argentina e no México revela que os principais motivos de escolha da empresa dos sonhos pela geração Y são: bom ambiente de trabalho, desenvolvimento e crescimento profissional. O fator remuneração só foi citado por apenas 5% dos 35 mil jovens entrevistados, com idade média de 24 anos.  

Ou seja, mais do que um ótimo salário, as pessoas querem ser relevantes, reconhecidas. Salário é um prêmio ao seu esforço e dedicação, aos resultados alcançados. Para isso, o líder precisa entender que o caminho não é “comprar” o funcionário com migalhas. Que exemplo Novak pensa dar ao distribuir gorjetas entre os empregados, frangos de borracha, dentaduras de plástico e outras aberrações como essas de brinde?

A matéria da revista diz que o executivo tem uma obsessão por reconhecer o desempenho dos melhores funcionários. Será mesmo? Não consigo imaginar que o uso de métodos nada convencionais como esses sejam realmente eficazes.  Todo mundo quer ganhar dinheiro, mas não é a principal meta. Quem  dirá, então, trocados como recompensa ao seu bom trabalho.

Não é à toa que passada a crise, as pessoas estão ávidas por trocar de emprego. Um estudo do Hay Group, realizado com 120 mil pessoas, aponta que 59% dos profissionais buscam uma nova colocação. Esse cenário não é só resultado de salários congelados, mas também de promoções adiadas para evitar demissões durante a crise.  

Se antes os funcionários eram gratos por terem seus empregos mantidos, diante do reaquecimento do mercado começam a mostrar o quanto tiveram de sucumbir. Prova disso é que repensam suas perspectivas de carreira, o que pode ser muito ruim para organizações que não conseguiram tomar as medidas necessárias para implementar programas eficazes de engajamento durante os tempos difíceis.

Agora, sejam sinceros: seu talento merece ser recompensado com notas de míseros 100 dólares?

Categorias: [ Pessoas & Carreiras ]

21 Comentários

  1. Thiago de Assis - 1 de julho de 2010 @ 8:11 pm

    Esse case me fez pensar em duas coisas… Do ponto de vista financeiro, 100 dólares representam cerca de 14 horas de trabalho de um funcionário desse tipo nos EUA (~ US$7,00 / hora), ou 2 dias de trabalho no Mês… Logo trata-se de uma “remuneração varíavel” mto pouco atrativa.

    Além disso, a partir da percepção do funcionário cria-se uma relação patriarcal… na qual o funcionário enxerga o management como aquele “tio generoso que dá bons presentes no Natal”… Isso, no longo prazo, me parece muito nocivo para a motivação dos funcionários (que se tornam mercenários) e para os acionistas…

  2. Tuani Transferetti Perez - 16 de julho de 2010 @ 8:06 am

    Muito bom!

    Importante termos exemplos como estes em que a ética empresarial é questionada, para afinarmos cada vez mais nossas atitudes.

    Parabéns pela crítica.

  3. Marcelo Alves de Souza - 16 de julho de 2010 @ 9:04 am

    Ótima matéria.
    aqui faço uma pergunta retórica: o que dizer das empresas que não reconhecem o esforço de seus colaboradores e nem os reconpensam? É uma situação vista no dia-a-dia. onde se vê gestores exigindo o máximo de seus empregados e em contrapartida retribuem com a seguinte frase: “não está fazendo mais do que sua obrigação”.

  4. Marcelo de Almeida Rodrigues - 16 de julho de 2010 @ 9:05 am

    Julio Sergio, Parabéns pelo trabalho.

    Sua crítica é extremamente relevante para o nosso cenário atual, principalmente para a geração Y. Sou uma prova viva disso e não basta apenas uma recompensa salarial para manter os funcionários motivados. É preciso também que haja desafios constantes e feedback de reconhecimento. Isto é fundamental para os jovens talentos.

  5. Administrologia - 16 de julho de 2010 @ 9:16 am

    Parece-me absurdo acreditar na motivação única e exclusivamente focada no dinheiro. Remuneração é meio para se conseguir algo, e não a finalidade! Ora, é sabido e está mais que provado que salário baixo (ou a percepção de que se está recebendo menos que se merece) gera insatisfação, mas há um determinado teto nessa relação. Ou seja, não são diretamente proporcinais. A curva entre estas duas variáveis é mais logarítimica que linear. Parabéns pelo texto, e espero que alguns gestores leiam e entendam que essa não é uma desculpa para precarizar remuneração, mas para agregar outros fatores tão ou mais importantes.

  6. Geraldo - 16 de julho de 2010 @ 9:27 am

    Fui empresário mas sempre concordei que deve haver um equilíbrio entre salário e reconhecimento para manter e ter talentos humanos de qualidade motivados constantemente. Mas a realidade é outra: os empresários percebem o quanto o mercado paga por cada RH e entra neste leilão onde sempre tem um RH concorrente ofertanto seus talentos melhorados por um salário menor do que o RH contratado ganha. Basta observar na reportagem abaixo onde mais de 50% dos funcionários querem trocar de função.

  7. Rafael Balbi - 16 de julho de 2010 @ 11:06 am

    Podemos tomar como exemplo nós mesmo. Quando recebemos um aumento salarial ou somos contratados por uma empresa que nos pagará mais, estes proventos maiores serão significantes apenas por alguns poucos meses. Logo o aumento é assimilado pelo aumento gradual das despesas e, se a pessoa não tiver controle poderá acabar se endividando mais ainda.
    Esmolas como esta citada na matéria, dadas com esta freqüência logo se tornarão banais e deixarão de fazer o efeito que ele espera. Eles quererão mais.

  8. Paulo José Signoretti - 16 de julho de 2010 @ 12:05 pm

    concordo com o comentário, mas existe certas pessoas, ou melhor um monte ou melhor a grande maioria que gosta do “circo” comentado pelo autor

  9. Jane - 16 de julho de 2010 @ 1:03 pm

    Parabéns !Na materia da revista,você comenta que ficou horrorizado com a postura empresarial do americano. Te digo que não só empresários americanos , os empresários brasileiros já utilizam esse médoto a muitos anos!! Ao ler sua matéria me vi, no passado funcionária por muitos anos em uma empresa, cujo administrador usava esse método Era uma festa.. distribuia notas sempre em reuniões ou eventos…nada funcionava direito..Exemplo típico de domador de feras!!

  10. Ricardo A.G.Costa - 16 de julho de 2010 @ 1:04 pm

    BOA MATÉRIA! ,
    MAS POR EXEMPLO QUANDO ESSA NOTA DE 100 PASSA A SER PAGA COMO MOEDA TIPO UMA RASPADINHA DE 20 A 200 REAIS CADA CONTRATO FECHADO. PODEMOS ASSIM CONSIDERAR COMO RECONHECIMENTO MOTIVADOR OU UMA MERA ESMOLINHA???

  11. Ronaldo - 17 de julho de 2010 @ 9:27 am

    Muito boa materia.

    Temos que buscar o ideal para cada Organização a Cultura da organização que define para colocar-mos em pratica essa materia.

  12. Diego Padovan Vieira - 17 de julho de 2010 @ 9:37 am

    Bom dia, caro colega. Primeiramente, parabenizar pela matéria. Muitos desses gestores acham que nós estamos trabalhando em uma organização, somente pelo dinheiro. Revivendo a famosa, teoria X de McGregor, onde acham que trabalhamos somente pela remuneração. È triste, mas ainda é uma realidade mecanicista. Digo que um tapinha na costa, faz muita diferença, receber uma recompensa simbolica, ou seja, receber um elogio pelo trabalho prestado, faz com que a pessoa se sinta útil.
    Abraço

  13. Sergio Castanheira - 17 de julho de 2010 @ 12:02 pm

    Funcionários mercenários e patrões bonzinhos com segundas intenções, isso não é novidade e nem vai deixar de existir. Todos os objetivos (metas) dentro de uma organização, com programas de reconhecimento e méritos podem gerar funcionários e chefes mercenários, tudo vai da forma com que a administração é condusida e o respeito entre ambas as partes é valorizado.
    Se dar notas de US$ 100,00 está gerando resultados satisfatórios para ele, que tipo de funcionários ele tem?
    Eu nunca gostei da Pizza Hut.
    Abraço a todos.

  14. Vera Suzart - 18 de julho de 2010 @ 9:36 am

    E o que é o reconhecimento ao seu trabalho e dedicação?
    Qual o funcionário que trabalha sem renumeração ou que não espera ser reconhecido e ser promovido? Não é poder? Não é ganhar mais dinheiro?
    É desta forma que o funcionário deve ser reconhecido. Dando mais oportunidades para mostrar seu trabalho e não com notas de 100 dolares.
    Parabéns.

  15. Alvaro Augusto - 18 de julho de 2010 @ 9:35 pm

    O que mais me preocupa não é a “remuneração imediata” dos funcionários. Se isso é corrupção ou não, pouco importa, pois, no fim, o salário ao final do mês também poderia ser considerado corrupção. O que me preocupa é a mistura de notas de dinheiro e comida!

  16. Clever Rogério - 19 de julho de 2010 @ 12:34 am

    Parabéns! Reflexo condicionado? Eu dou e as feras continuam reagindo como eu espero que reajam? Certamente. Estamos diante de uma febre de atitudes chamadas de motivadoras, praticadas por quem está no poder, mas não passam de ações para domar, como abordado no artigo. O pior é que, amanhã, dependendo do humor do chefe o mesmo resultado pode valer apenas 30 ou 40US$; e assim o desempenho fica a mercê dessa oscilaçao do chefe, nada de mérito. Ninguem se motiva com isso, só reage, pq se ganhar…

  17. Augusto - 19 de julho de 2010 @ 1:33 am

    Interesante, mas a análise é incompleta, o que precisamos saber é se os empregados dessa empresa não gostam dos agrados, o quanto no final de um mês o percentual desses valores influenciam na remuneração dos empregados, se além dos agrados existe um clima organizacional favorável. A melhor estratégia adotada é a que leva emconta o perfil do funcionário. Se perguntármos a um funcionário do Bobs o que ele prefere uma foto sua de funcionário do mês ou uma nota de cem Reais? Acho que primeiro a nota

  18. João Gabriel - 19 de julho de 2010 @ 9:32 am

    Não concordei com a idéia geral do texto. Não li o texto original (sobre o empreendedor da Yum) e por isso não vou estender muito este comentário. Porém, a seguinte frase de seu texto me chocou: “Todo mundo quer ganhar dinheiro, mas não é a principal meta.” Mesmo? Dinheiro não é o principal objetivo do seu emprego? Você trabalharia somente por respeito? Ou valor? Os métodos que o David Novak utiliza podem não ser ideais em todo ambiente de trabalho, mas se eles obtem resultado no dele, ok.

  19. Flavio DiRosa - 19 de julho de 2010 @ 9:39 am

    Concordo com as observações de todos, especialmente quando consideramos a cultura nossa de brasileiros e o nível profissional das pessoas deste grupo.

    Gostaria apenas de observar que a cultura americana é, como todos sabe, muito mais “dinheirista”que a nossa e que a Pizza Hut tem a esmagadora maioria de seus funcionários composta de pessoas de extração social humilde, e.g., imigrantes ilegais e legais, adolescentes, pessoas de baixa escolaridade etc.

    Acredito que essas pessoas podem ver essa política do 100 dolar-bill bem diferente de nós aqui.

    Um grande abraço a todos !

  20. Francisco Marcio - 19 de julho de 2010 @ 8:57 pm

    Parabêms pela excelente matèria!

    Acho incrível empresarios se portarem desta forma, essas esmolas são tão humilhantes, Mas na verdade são mais baratas não é ?, investimentos em pessoal, politicas de reconhecimento e planos de carreira dão mais trabalho e demandam maiores investimentos!
    Isso é cultural, os empresários Brasileiros adotam métodos ainda piores, empresas do tipo “Mais barato, Mais barato”, é voçê já entendeu, lá o funcionário do mês recebe uma caixa de bombom, HUMILHANTE!!!!

  21. Edileusa Lima - 21 de julho de 2010 @ 11:46 am

    Olha,
    Se for possível ganhar umas 5 notas por dia,
    Dá até pra ficar satisfeito no final do mes….
    Agora, como isso não será possível, tendo em vista que são vários funcionários e não existe apenas 1 que seja o melhor em tudo o tempo todo…..
    A motivação desses funcionários com certeza terá seus dias contados….

    Abraço,

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Prof. Livre-docente Julio Sergio Cardozo

Consultor em gestão de negócios, conferencista, autor de livros e artigos e professor livre-docente em controladoria e finanças.

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