20 de julho, 2010

Os desafios e entraves do IFRS no Brasil e no mundo

 

Prestes as serem adotadas pelas companhias abertas brasileiras nos balanços de 2010, as novas normas internacionais de contabilidade continuam provocando discussões acaloradas. Sobretudo, depois que a crise expôs os efeitos do padrão IFRS nas demonstrações contábeis dos bancos relativas ao capítulo que trata do valor justo dos ativos, por ensejar eventual desenquadramento das instituições financeiras às regras do acordo da Basileia II.

Ao sentirem na pele a pressão, certos setores saem da toca e mostram suas garras. Movem céus e montanhas para deixar as coisas do jeito que estão. Reagem às mudanças com todas as forças, porque elas incomodam, ferem seus interesses, quando deveriam aplaudir a exigência de balanços mais transparentes e próximos da realidade das organizações. Alguém já disse, certa vez, que o ser humano é preguiçoso por natureza e por essa razão torna-se mais cômodo rejeitar mudanças, defender com unhas e dentes tudo aquilo que os tirem da zona de conforto.

Postura que só atrapalha os avanços necessários para alcançarmos as melhores práticas contábeis, globalmente comparáveis e que represente de forma fidedigna a verdadeira situação patrimonial da empresa. Claro que é uma minoria, mas uma minoria barulhenta. Tão barulhenta que é capaz de interferir sobre um possível consenso. A má notícia é que todos saem perdendo. O desgaste é latente e nada justifica o imbróglio em que se transformou o “sonho” de ter um padrão contábil mundial único.

Considerado por alguns veículos de imprensa o santo graal dos contadores há mais de 30 anos, essa unificação está mais longe de acontecer do que deveria. Pior é ver que os “amigos” do IFRS no mundo são os mesmos que figuram na lista de “inimigos” das normas internacionais. Assim como os camaleões, vão mudando de acordo com a conveniência.

Os contadores, por exemplo, são “amigos” porque o padrão internacional de contabilidade é o resultado de longos debates e estudos sobre a melhor forma de representar os efeitos das transações na massa patrimonial. Por outro lado, aparecem como “inimigos” do IFRS se encarnarem a figura de acomodados, que batem, esperneiam e não querem aprender as novas normas.

As duas faces da moeda também se encaixam perfeitamente aos auditores. São amigos porque representam a elite contábil, reconheceram desde cedo a necessidade de instituir um padrão internacional que permitisse a comparação do desempenho das empresas de mesmo segmento econômico, independente do país em que atuam. A globalização de um padrão único de contabilidade reforça e justifica a crença de que a contabilidade é a linguagem dos negócios, é a ciência da informação.

Mas se transformam em inimigos do IFRS no momento em que insistem em cobrar pelos seus serviços de assessoramento na implementação do IFRS, com base na hora de trabalho incorrida, quando esse tipo de trabalho, pela sua relevância e pelo valor que proporciona ao cliente, deveria ser cobrado tendo em vista a relevância, a especialização e os benefícios proporcionados. Pecam ao cobrar taxa horária como se tivesse um taxímetro acoplado ao seu notebook, desvalorizando seu talento, desperdiçando a oportunidade única de mostrar ao mundo que seu conhecimento faz a diferença, fortalece o mercado de capitais e aumenta a proteção ao investidor individual.

Fico horrorizado quando leio nos jornais declarações de executivos de instituições financeiras pregando a “soberania contábil” para justificar a aversão à exigência de marcação ao valor justo de certos ativos. Ora, o principal benefício do IFRS é justamente a criação de padrão universal, sem fronteiras. Soberania contábil é atraso e, no fundo, representa jogo de interesses inconfessável.

Na matéria publicada, originalmente, no Financial Times e reproduzida pelo Valor Econômico, em sua edição de 30 de setembro de 2009, o presidente da seguradora francesa Axa defende que “a definição das normas contábeis é importante demais para ser deixada a cargo de contadores”. Curiosamente, os contadores não o contestaram. Pelo menos por aqui.

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Prof. Livre-docente Julio Sergio Cardozo

Consultor em gestão de negócios, conferencista, autor de livros e artigos e professor livre-docente em controladoria e finanças.

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