Semana passada, entre uma reunião e outra, recebi a ligação de um grande amigo, Luis, Chief Executive Officer (CEO) de uma importante empresa familiar do ramo químico. Ao perguntar que bons ventos o trazia, percebi, por seu tom de voz, que as notícias não eram nada positivas. Muito pelo contrário. Bastante abalado e sem dormir há algumas noites, contou que foi “forçado” a demitir boa parte dos funcionários em decorrência da crise.
“Confesso que não foi fácil ver aqueles pais e mães de família perderem seus empregos”, me disse ao relatar cenas de pessoas indo embora aos prantos e caminhando cabisbaixas pelo pátio da fábrica rumo ao portão de saída. A maioria sem saber como falar o assunto ao chegar em suas casas. Ao ouvir as palavras de Luis, entrecortadas pela emoção e viés de desabafo, reconheço que também fiquei sensibilizado e até um pouco deprimido ao imaginar a vida desmoronando de cada uma dessas pessoas.
O tempo passa, o mundo evolui, as economias crescem, mas parece que as organizações ainda não aprenderam que eliminar pessoas representa um dos maiores erros que podem ser cometidos. Mesmo quando a ordem é cortar custos. Precisamos enxergar de uma vez por todas que talentos não são substituíveis e que cometemos um pecado mortal jogando fora todo o investimento empregado na formação de um talento ou no esforço feito na disputa para tirar da concorrência um cérebro privilegiado. É um tiro que sai pela culatra.
Ações insensatas e equivocadas que lá na frente implicarão em perdas irrecuperáveis. Fico me perguntando se realmente seria necessário passarmos novamente por esse devastador tsunami de dimensões incalculáveis e que vem varrendo o mundo inteiro. Aqui vai um ponto de reflexão: como empregadores, onde está a tão pregada responsabilidade social? Será que não percebem as marcas profundas que deixam em cada uma dessas pessoas ao cortar postos de forma tão indiscriminada?
Não é plausível assistirmos a anúncios de demissões em massa como vêm acontecendo agora, enquanto há cerca de um ano só se falava em ganhos, lucros, expansões, mercado aquecido e apagão de talentos. Talentos que estão sendo despejados novamente ao mercado como mercadoria que não serve mais ou tiveram seu prazo de validade expirado.
Acredito que sempre existirão saídas para aqueles que estão dispostos a resistir à maré de pessimismo. Por isso, não podemos deixar de aplaudir a iniciativa das empresas, por outro lado, em reduzir as jornadas de trabalho e os salários dos funcionários para manter seus empregos. Tanto que obtém aprovação da população. Segundo dados divulgados ontem (3) pela CNT/Sensus, 50% dos entrevistados - um total de duas mil pessoas - são favoráveis a essas medidas.
Mas isso é apenas um começo. Devemos nos preocupar em soluções que sejam capazes de superar toda e qualquer crise, “marolinha” ou tsunami, que venha a aparecer. E não continuar recorrendo a práticas que se repetem cada vez que o mercado é invadido por uma onda de surpresas. Como falar em evolução se permanecemos presos a antigas fórmulas, que convenhamos, mais parecem aquelas velhas práticas adotadas na década de 80?
Os empregos se foram. Os demitidos estão em casa. E o Luis? No hospital!




Você não tem de ceder!