4 de fevereiro, 2010

Ser politiqueiro ou ser político na empresa? Eis a questão

Quem nunca ouviu a frase “quem não é político na empresa, não sobe na carreira”? Outro dia, um velho amigo, executivo de um grande grupo multinacional, estava frustrado por ser demitido após 20 anos de casa. Acredita ter sido retaliado ao discordar dos acionistas. Postura nada diplomática, reconhece.

É fato que quem não sabe travar alianças internamente certamente ficará fora do jogo.  O dom de ser político pode levar ao sucesso, da mesma forma que a inabilidade em sê-lo acabará jogando-o ao ostracismo. Não há problema algum em defender um ponto de vista. A diferença está na forma como sua posição é defendida.

Outro aspecto que muita gente esquece é a maneira de se mostrar diante dos outros. Não basta apenas ser o melhor, mas sim ser visto como tal. Ser o primeiro a chegar e o último a sair não significa que alguém está vendo seu trabalho. Muito pelo contrário. Ficar escondido atrás do computador é um dos maiores erros que você pode cometer. Tem que circular e sempre com um sorriso discreto, ar de vencedor, de felicidade.

Acho essencial saber articular-se dentro da empresa, fazer seu chefe enxergá-lo - mas não apenas como um número. Não falo de sair gritando pelos corredores sobre seus feitos, como fazem os incompetentes e inseguros. É saber a hora certa de mostrar que você faz a diferença, que você dá resultados e sabe questionar com o que não concorda. Com polidez, educação, mas com convicção.

Muitos ao esconderem-se sem coragem de dar as caras acabam justificando sua estagnação pela politicagem que há nas empresas. Aí, muito cuidado. Existe um abismo entre ser político e fazer politicagem, Não confundam uma coisa com a outra. Todos nós já questionamos alguma vez na vida a promoção de alguém que consideramos menos competente. Mas não dá para achar que deve usar da politicagem para crescer como se estivesse sendo político.

A politicagem é um lado da política reprovável, aquele ligado ao conceito de bajulador, puxa saco. Enquanto a habilidade de ser político consiste na capacidade de negociar, de articular grupos em torno de ideias e de persuadir. Ao contrário do que muita gente imagina, ser político não significa passar rasteira nos outros. O que não se pode é baixar a cabeça o tempo todo.

Ser político é entender as regras do jogo, dominar as relações de poder e saber transformar algo negativo em positivo. Sem dúvida, quem não sabe fazer política, dificilmente chegará ao topo nas empresas. Aliás, se você almeja o posto de número um, saiba que é pré-requisito ter jogo de cintura, ser flexível, ser político. E não pensem que para isso é preciso ter talento nato. Se você souber aprender com quem sabe, no futuro deixará de se colocar como vítima da realidade e estará na liderança como quem soube chegar lá.

Nas clínicas de preparação para o pós-carreira e no aconselhamento a CEOs este tema é recorrente, o que demonstra a dificuldade que grande parte das pessoas tem para distinguir política (sadia) da politicagem (perniciosa).

Você concorda?

Categorias: [ Pessoas & Carreiras ]

9 Comentários

  1. Edinaldo Marques - 4 de fevereiro de 2010 @ 12:01 pm

    Parabéns ao autor pelo artigo. Ser político no bom sentido faz parte da vida de qualquer pessoa, independentemente de estar na empresa, em família ou no convívio social. A questão é praticar uma política ética, respeitar os demais, ter consideração, fazer ao outro aquilo que deseja que seja feito consigo etc. Isto é difícil para muita gente. Vai depender dos valores pessoais de cada um.
    Edinaldo Marques
    http://www.blogdoprofessoredinaldo.blogspot.com

  2. Sergio Antonio Meneghetti - 4 de fevereiro de 2010 @ 2:41 pm

    Julio!
    Seus comentários pegam sempre na veia, parabéns.

    Tomo a liberdade de incluir um trecho do meu livro “Intuição, Ferramenta de Trabalho”.

    - Procure ser você mesmo, sem artificialismo, seja humilde ouvindo mais do que falando, respeite à aqueles que estão a sua volta, se tiver uma meta a conquistar, e tem que ter, conquiste-a através da sua obra, esqueça a politicagem, esta pode colocá-lo nas alturas, porém será numa base falsa, e pode romper colocando-o em situação desagradável.

    - Nunca subestime ninguém, as aparências enganam, e sempre teremos algo a aprender com o nosso próximo, mesmo que seja a de não ser igual a este.

    - Quando estiver no auge do sucesso e a vaidade invadirem-no, não olhe apenas para cima, pois à sua frente pode ter o buraco que o acordará desta ilusão.

    - Não utilize as pessoas no teu caminho como trampolim para o sucesso, antes faça delas amigos sinceros que te darão o sustento necessário quando precisares.

    A maior identidade do obreiro naturalmente é a sua pura obra, sua alma e dignidade valem muito mais que uma porção de moedas e de uma hierarquia efêmera.

    Forte Abraço.
    Sergio

  3. Jorge Carvalho - 5 de fevereiro de 2010 @ 6:54 am

    Julio, esse é um tema muito pouco explorado na literatura sobre negócios. Me parece cruscial para a longevidade corporativa. Feliz é aquele artista solitário que tudo que toca vira ouro. Para os mortais como nós, nos resta dançar o bambolê corporativo com a tropa.

  4. Dante Mantovani - 5 de fevereiro de 2010 @ 9:01 am

    Achei muito pertinente a distinção de significados entre a politicagem manipulatória e o fazer política como forma de legitimar um merecido espaço na organizalção.

    Creio que o que separa a politicagem da política é a dose: a ambição, que quando ultrapassa a tênue fronteira definida pela ética se transforma em ganância, com suas consequências previsíveis e conhecidas de todos.

    Abraços,

    Dante

  5. Alexandre Silva - 5 de fevereiro de 2010 @ 12:08 pm

    ótimo artigo, parabéns!
    Gostaria de publicar este artigo em meu Blog, vc permite? A autoria será destacada.
    Abs,
    Alexandre Silva

  6. Julio Sergio Cardozo - 5 de fevereiro de 2010 @ 6:22 pm

    Alexandre, autorização concedida. Abs

  7. Julio Sergio Cardozo - 5 de fevereiro de 2010 @ 6:27 pm

    Jorge, dançar o bambolê requer habilidades, jogo de cintura e ótimo “rebolado��?. As corporações em que a política é critério válido (às vezes crucial) para a progressão funcional, estão fadadas ao fracasso. Pena que o fracasso não é automático e não vem rápido. Não há remédio ou tratamento intensivo a recomendar para se safar de uma situação como essa. Nas sessões de counseling esse tema é recorrente.

  8. Alexandre Silva - 5 de fevereiro de 2010 @ 7:09 pm

    Julio Sergio, boa noite! Muito obrigado pela concessão, se quiser conferir, visite o Blog http://gravatasolta.com.br Deixe um comentário, vou me sentir honrado.
    Abração!
    Alexandre Silva

  9. Leonardo Sales - 17 de fevereiro de 2010 @ 3:47 pm

    Prezado Julio,
    Boa tarde!

    É bem verdade que aquele que não se articula, não mobiliza e não traz para si aliados competentes para que possa alcançar objetivos e bons resultados estará fadado ao fracasso. Porém, tenho visto com uma frequência que me incomoda, a tolerância das pessoas no mundo corporativo a situações que elas mesmas consideram inaceitáveis em âmbito particular e familiar. Dessa maneira, valores humanos e de coletividade estão caindo em desuso, como o respeito à pessoa e à sadia diversidade de opiniões, o diálogo franco, direto e verdadeiro, a sinceridade,a ética e até mesmo a educação estão ficando em segundo ou terceiro plano. E essa constatação se reflete no jeitinho brasileiro, na máxima de que levar vantagem em tudo é uma virtude, nos adolescentes sem limites e bnos profissionais que se acostumaram a agir da forma mencionada anteriormente. Dessa forma, fica o alerta para que os valores aprendidos em famíla e comunidade, tais como ética, educação e respeito sejam os pilares de sustentação também do mundo corporativo. Um grande abraço!

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Prof. Livre-docente Julio Sergio Cardozo

Consultor em gestão de negócios, conferencista, autor de livros e artigos e professor livre-docente em controladoria e finanças.

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