18 de fevereiro, 2010

Ser descartável pode dar início a uma nova vida

Deixamos de ser necessários para quem um dia vai nos virar as costas e passamos a valorizar quem nunca nos verá como desnecessários: nossas famílias

Em um feriado chuvoso em São Paulo resolvi ir ao cinema. Logo que cheguei à bilheteria, um filme me chamou atenção logo de cara foi “Amor Sem Escalas”, com o galã de quase todas as mulheres, George Clooney. Baseado no livro escrito por Walter Kirn, a trama conta a história de Ryan Bingham, um consultor que tem a terrível tarefa de demitir funcionários para cortar os gastos das empresas.

A comédia dramática surpreendeu com várias lições que, mesmo com os mais de 30 anos de experiência na vida executiva, ainda me causam perplexidade. Ao ver os depoimentos e reações de quem estava sendo despedido por Clooney percebi o quanto continua sendo difícil receber a notícia de uma demissão. Por mais que se tenham alguns cartões vermelho acumulados no currículo, ninguém está de fato preparado para ser dispensado.

É duro perder o sobrenome corporativo, nem que seja por um breve momento, ou mesmo saber como chegar em casa e dizer que perdeu o emprego. Lidar com a sensação da rejeição não é fácil. Sim, porque sempre achamos que não somos mais aceitos e que há algo errado com a nossa conduta, com nosso desempenho e pensamos: “Como assim, ser escorraçado sem qualquer justificativa, logo você que deu tantos resultados à companhia e perdeu incontáveis fins de semana se dedicando à empresa”?

Outros ainda podem se perguntar: “Deixei minha vida pessoal de lado porque precisava manter o emprego e, agora, estou na rua”? Infelizmente, situações como essas são e serão cada vez mais comuns com o crescimento desordenado da população e o fim dos empregos na forma tradicional como conhecemos. Podemos achar que depois da primeira experiência, vai ser mais fácil quando acontecer de novo. Claro que essa é uma hipótese e você no fundo não acha que vai acontecer novamente.

Então, depois de uma temporada de caça está empregado de novo e sua aposta é que tudo será diferente. Se você der sorte e não tiver cortes na empresa ou ninguém conseguir puxar seu tapete, seu tempo de permanência naquela companhia será maior. Mas cedo ou tarde, alguém vai te dizer com todas as letras que você se tornou desnecessário. Isso mesmo. A vida continua e é preciso que ciclos se encerrem para dar chance a novos talentos que estão ansiosamente esperando por uma oportunidade.

Entendem agora a razão de muitos profissionais terem medo de preparar um sucessor para substituí-lo? Que me desculpem os hipócritas, mas ninguém tem sangue frio o suficiente para preparar alguém que vai ocupar seu lugar enquanto seu destino representa uma incógnita. Não fomos treinados para suportar perdas, mas precisamos aprender a lidar com elas se quisermos parar de sofrer porque deixamos de ser necessários para quem um dia vai nos virar as costas e passamos a valorizar quem nunca nos verá como desnecessários: nossas famílias. É a mensagem mais forte que fica após assistir ao filme com o Clooney.

Talvez aí encontraremos forças para enxergar na demissão a grande e única chance de realizarmos nossos sonhos. Eles podem ser reais, mas não enquanto esperarmos a vida nos dar cartão vermelho para acordarmos de ilusões que um dia vão embora. Muitas vezes para sempre, sem nos dar uma segunda chance.

É preciso refletir sobre as sábias palavras do pensador Salibi Neto “A vida biológica está cada vez mais longa, enquanto a vida profissional está cada vez mais curta”. É preciso estar preparado para o dia em que a versão brasileira do consultor Ryan Bingham bater à nossa porta!

25 Comentários

  1. Costacurta - 18 de fevereiro de 2010 @ 9:02 am

    Júlio
    Excelente seu texto. As vezes nos preocupamos com o MICRO, esquecendo o MACRO. Costacurta

  2. Cassyra L. Vuolo - 18 de fevereiro de 2010 @ 9:19 am

    Uma fraseantiga que cada vez mais se torna real no mundo coporativo: “Nao trate com prioridade quem te trata como opção” Para o mundo corporatico sempre somos opção, para a nossa família somos e seremos “a” prioridade. E para qual nos dedicamos? Quem em nossa vida é a prioridade?Se tiremos um vida biológica longa é melhor nos prepararos ára este longo percurso.O Júlio já deu seu recado.

  3. Darlene Dutra - 18 de fevereiro de 2010 @ 2:25 pm

    Excelentes reflexões!! Nesse final de semana tive a oportunidade de assistir ao filme e foi muito bom repensar sobre os valores reais dos vários aspectos da vida. O que percebo é que , em geral, o trabalho ou emprego consomem grande parte da vida, do tempo, e as pessoas se deixam levar demasiadamente (ao acaso). Algumas chegam ao cúmulo de se “confundirem” com as posições que ocupam e quando ocorre o desligamento ficam literalmente “sem chão”. Penso que os líderes conscientes podem colaborar muito com suas equipes/pessoas, trazendo à tona, sempre que possível, posicionamentos que estimulem a pensar sobre seus papéis e sobre suas vidas. Parabéns pelo artigo e abordagem!!

  4. Julio Sergio Cardozo - 18 de fevereiro de 2010 @ 3:36 pm

    Darlene, conhecemos casos escabrosos de falta de humanidade, desrespeito e consideração. Empresas muito conhecidas que se dizem do bem tratando seus “valiosos” recursos humanos como copos descartáveis. Quando aconselhamos CEOs nas sessões de counseling a forma de demitir subordinados sempre aparece como tema subjacente e não como tema principal. Portanto, no fundo, CEO também teme ser um dia o “cara” da vez.

  5. Julio Sergio Cardozo - 18 de fevereiro de 2010 @ 3:40 pm

    Cassyra, adorei a sua colocação. Que frase ótima no seu poder de comunicação: “Não se trata com prioridade quem te trata como opção”! Como diz a Andrea Giardino em suas reflexões sobre carreira, o que nos sobra é a família. Por obrigação, por laços de sangue, por amor e solidariedade.

  6. Julio Sergio Cardozo - 18 de fevereiro de 2010 @ 3:42 pm

    Costacurta, o MICRO é o dia-a-dia, a necessidade mais imediata. O MACRO fica para depois, dá-se um jeito. Aí é que mora o perigo. Você não escreveu um livro sobre estratégias de negociação? Aliás, uma ótimo livro.

  7. AC Guardia - 18 de fevereiro de 2010 @ 10:04 pm

    Esse sempre foi meu grande dilema:
    Ter sucesso e pretígio fenomenal, mas para isso preciso me dedicar muito mais e por vezes até me esquecer da família, ou ser mediano e viver melhor com minha família.
    Ai cabe para mim duas coisas: Satisfação e reconhecimento profissional ou qualidade de vida, paz e harmonia em casa.
    Creio que dificilmente se terá as duas coisas, por favor, digam-me uma pessoa que conseguiu isso.
    Já não foram as vezes que pensei em aceitar trabalhos que me renderiam substancial rendimento, mas que deveria sacrificar minha família e outras que pensei em jogar tudo para cima e viver em uma cidadezinha do interior de Minas com uns 50.000 habitantes e ter uma vida 1000 vezes melhor que a dos grandes centros. Mas será que isso dura? As duas situações?

  8. Jussara - 19 de fevereiro de 2010 @ 10:22 am

    TEXTO MUITO OPORTUNO.VAMOS AO CINEMA???NEWTON

  9. Julio Sergio Cardozo - 19 de fevereiro de 2010 @ 4:38 pm

    Jussara, virão outros artigos nesta linha, futuramente.

  10. Julio Sergio - 19 de fevereiro de 2010 @ 7:54 pm

    Guardia, o sucesso, infelizmente, tem preço. Durante minha vida como top executivo adorava o glamour e a família ia ficando para depois. Sofriam calados. Hoje, consegui resgatar as faturas vencidas. Quanta coisa boa perdi em prol do sucesso profissional. Será que valeu a pena? A família é quem deve responder.

  11. Alihana - 21 de fevereiro de 2010 @ 5:37 pm

    Sim, o que fazer quando somos considerados desnescessários. Uma realdade cada vez mais existente no mundo dói um tico quanto quisermos. Choremos, sintamos por mais ou menos quantos minutos uns 20m? Depois vamos passar imediatamente para outras pessoas. Outros grupos, empreendimentos. Realidades e mudanças, maravilha o mundo está cheiinho de gente que sempre precisa de nós. É importante acompanhar as descobertas, o tempo e suas descobertas e estudos. Observarmos a riqueza de Deus para nós, infinita. Deus e suas leis, ENTENDER. E veremos e reavaliaremos os valores. Ter uma vida saudável, fazer o melhor de nós mesmos, acredito que jamais vamos ter uma fórmula exata quando se trata de seres humanos.

  12. Julio Sergio Cardozo - 22 de fevereiro de 2010 @ 2:05 pm

    Alihana, que reflexão linda!

  13. Herica S.T. - 23 de fevereiro de 2010 @ 5:44 am

    Leu meus pensamentos? Isso aconteceu comigo.

  14. Julio Sergio Cardozo - 23 de fevereiro de 2010 @ 7:55 am

    Herica, a sintonia vem do bom senso, da experiência vivida, dos casos tratados nas clínicas de planejamento de vida.

  15. Fernanda - 24 de fevereiro de 2010 @ 5:13 am

    Olá, Júlio!Recentemente fui demitida de uma multinacional onde já trabalhava a quase 10 anos e mesmo já passado 2 vezes por esta situação, realmente não é fácil. A sensação pior é a falta de consideração/valorização pelos anos de dedicação, onde na maior parte do tempo, priorizei o lado profissional. Enfim, a gente acaba assumindo o nome da empresa como nosso sobrenome e muitas vezes deixando que a emprege realize a gestão da “nossa” carreira. Mesmo tendo realizado muito na empresa, enfim, chegou a minha vez, e nesta hora fica claro que o colaborador não passava de uma matrícula.Lições aprendidas: 1. Nada é mais importante que nós mesmos, nossa família e amigos; 2. Nunca deixe a gestão de sua carreira por conta da empresa em que trabalha; 3. Dinheiro não é tudo; 4. Equilibrar sempre o lado pessoal com o profissional; 5. Vestir sim a camisa da empresa, mas cuidar para não vestir o uniforme completo; 5. Esteja sempre preparado para uma demissão, por mais experiente que seja, pois quanto mais tempo você fica numa empresa, o seu salário vai aumentando e pode chegar o dia em que devido à restrições orçamentárias ou mudanças estratégias, você seja incluído no próximo corte.Apesar do choque inicial, virei a página e hoje estou mais feliz e motivada para iniciar uma nova história.Enfim, importante encarar a experiência vivida, as lições aprendidas e valorizar esta nova fase.Grande abraço e agradeço a oportunidade em compartilhar esta experiência.

  16. Julio Sergio Cardozo - 25 de fevereiro de 2010 @ 7:18 am

    Fernanda, seu exemplo de superação mostra, enfaticamente, que ser demitido não é o fim do mundo se o indivíduo souber aproveitar o momento para refletir sobre sua vida e, então, encontrar novos e melhores caminhos. Obrigado por compartilhar sua experiência.

  17. Suzy Barbosa - 26 de fevereiro de 2010 @ 7:08 am

    Excepcional reflexão!No que diz respeito em tornar cada vez mais perceptível a qualidade de serviços prestados, a qualidade de vida e certos valores não são apagados, mais adormecidos!Sempre leio os seus artigos. Atitudes introspectivas aceleram nosso desenvolvimento e foco / mapeamento pessoal, contribui muito com nosso planejamento!Parabéns!

  18. Brian Lipczynski Martins - 26 de fevereiro de 2010 @ 12:13 pm

    Muito bom o artigo, porém, a preparação de um sucessor pode ser enxergada de outra maneira. pergunto, como posso ser promovido sem ter um sucessor? Soa estranho, justamente por que está em nosso “DNA” não aceitar essa condição, insegurança, medo de perder a estabilidade. Mas pensamos assim, se você é insubstituível, necessário, indispensável, jamais será promovido. Vejo empresas que usam a sucessão, mesmo em nível operacional, como forma de crescimento na carreira, ou seja, preparam alguém para ocupar determinado lugar, função. Para mim, existe mais essa forma de ver a situação de ser desnecessário.Brian Lipczynski MartinsConsultor de Empresasbrian.martins@bol.com.br

  19. Julio Sergio Cardozo - 26 de fevereiro de 2010 @ 3:58 pm

    Brian, o seu comentário chama atenção para um ponto crítico:para ser promovido é preciso ter um sucessor para ocupar o cargo que ficaria vago. Nada mais verdadeiro, desde que haja um plano de carreira e oportunidades para ascender (verticalmente) e/ou avançar lateralmente (horizontalmente) por meio de transferência para outra unidade ou função do mesmo nível. Exceção para os casos de saída por aposentadoria. Obrigado por compartilhar.

  20. Julio Sergio Cardozo - 26 de fevereiro de 2010 @ 3:59 pm

    Suzy, obrigado por compartilhar suas reflexões.

  21. Eduardo Furtado - 9 de março de 2010 @ 7:57 am

    Júlio, achei extremante interessante e apropriada a sua reflexão.A dor é inevitável mas o tempo do sofrimento será uma decisão pessoal. Quanto mais rápido olharmos para nossa família e sairmos atrás de novos desafios, melhor para todos que realmente gostam de você.Sobre preparar um substituto, acredito que o medo acontece se a organização que vc trabalha não oferece um bom plano de encarreiramento…mas sem dúvida é um medo compreendido.Obrigado e acompanharei novos artigos.

  22. Fábio - 18 de março de 2010 @ 8:53 am

    Excelente reflexão! Parabéns! Ao Prof. Júlio e a todos que fizeram os comentários! A situação de demissão é extremamente delicada, portanto, é importante quando estamos no papel de executor da demissão colocarmos nos no lugar de quem esta sendo demitido e procurar ser o mais profissional possível deixando a emoção de lado, o que com mais de 30 anos de vida profissional, sinto a mesma angustia que tive ao executar a primeira demissão de um colaborador que nem era tanto um colaborador, pois se assim o fosse talvez o demitido teria sido eu, mas mesmo assim devemos tratar a pessoa demitida com respeito. Nunca passei pela situação se ser demitido, porém se eventualmente isto ocorrer, acho que se for tratado como tratei de todos os casos de demissão ficarei triste mas acho que me recuperarei rapidamente.

  23. Julio Sergio Cardozo - 18 de março de 2010 @ 2:19 pm

    Fábio, obrigado pelo comentário. Teremos outros artigos na mesma linha de reflexão e tenho certeza que você vai ler e comentar a respeito.

  24. Patricia Siqueira - 24 de março de 2010 @ 9:37 pm

    É por acreditar que isso não é mais uma hipótese e sim um fato que defendo a dedicação integral em horário de trabalho à empresa e concordo que após esse momento temos que nos dedicar a nossa família, pois de que vale se sacrificar profissionalmente se não é para dar uma vida melhor aos nossos entes, e que vida é essa que não incluímos a nossa presença nela.

  25. Esqueceram de mim. Preferiram o outro | Blog HSM - 29 de julho de 2010 @ 3:09 am

    [...] é importante, desde que o profissional pule degraus ao longo de sua carreira. Mas fiquei calado, deixando a conversa rolar. Até que ele [...]

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Prof. Livre-docente Julio Sergio Cardozo

Consultor em gestão de negócios, conferencista, autor de livros e artigos e professor livre-docente em controladoria e finanças.

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