15 de abril, 2009

Vestir a camisa: acabou o mito?

Robespierre Castilho, um amigo de longa data, foi pego de surpresa dias atrás ao receber a notícia de que estava demitido. Sem chão e perplexo com a decisão, se sentiu enganado, vítima de sua própria ingenuidade. Principalmente porque o que recebeu em troca aos resultados gerados à companhia foi o não cumprimento de promessas feitas quando contratado.

Muito pelo contrário, ganhou um belo pontapé no traseiro e as “stock options”, relativas ao seu brilhante desempenho, sumiram, da mesma forma que seu nome da folha de pagamento. O que, em princípio, pode parecer um fato corriqueiro, tem um componente essencial, que há muito foi enterrado no mundo corporativo: a lealdade.

Desde que aceitou o convite para comandar a empresa do mundo “fashion”, em 2000, Robespierre promoveu uma reviravolta não só na organização como, também, no setor. Quintuplicou as vendas nos três primeiros anos, tirando a companhia do prejuízo, além de criar diferenciais competitivos que abalaram os concorrentes - tanto que muitos deles precisaram se adaptar à nova realidade do mercado criada pelas idéias do Castilho. Mas vimos que seus esforços de nada adiantaram. Tudo jogado fora.

Considero uma total falta de respeito a forma como as empresas vêm cortando seus talentos. Demitir faz parte do jogo. O que me causa espanto é a ausência de princípios éticos nas relações profissionais. Por isso, estamos assistindo a novo panorama nas companhias.

Acabou o tempo em que as pessoas “vestiam a camisa” da empresa. Pode parecer algo um tanto perverso para as organizações, mas não podemos esquecer que foram elas mesmas que criaram esse cenário. São reféns de suas próprias ações. E agora, pagam o alto preço. Os executivos não hesitam mais em brigar por seus direitos, mesmo que isso implique em medidas extremas.

Uma matéria que saiu recentemente na Gazeta Mercantil mostra que com a crise o número de ações trabalhistas promovidas por executivos aumentou de forma ímpar. Em alguns escritórios jurídicos, esse volume cresceu 30%, enquanto por outro lado também há uma forte demanda de profissionais que têm interesse em recorrer à justiça.

Na maioria dos casos, são ex-presidentes e diretores que não receberam seus bônus, garantidos tanto verbalmente quanto em contrato, depois de demitidos. As empresas acabam culpando os altos executivos de seus prejuízos ou maus resultados pós-crise. Concordo com o advogado Augusto Rodrigues Jr., sócio do Rodrigues Jr. Advogados, quando na reportagem ele afirma que o quadro atual abriu uma porta, revelando que, com crise ou sem, todos podem ter direitos igualitários.

Felizmente, meu amigo Robespierre faz parte dessa nova leva de profissionais que valorizam seu passe. No dia seguinte à demissão, em vez de seguir em direção ao seu antigo escritório na avenida Faria Lima (um dos maiores centros de negócios da América Latina), tomou outro rumo: o da Justiça do Trabalho.

Categorias: [ Pessoas & Carreiras ]

7 Comentários

  1. Zanatta - 15 de abril de 2009 @ 5:49 pm

    Quando o presidente da HP afirma que “eliminar talentos e depois recontratá-los é uma estratégia cara e arriscada” ele mostra uma face importante de uma crise: a ânsia por cortar gastos pode fazer com que os custos futuros aumentem consideravelmente.

    Ao mesmo tempo, podemos perceber o outro lado da questão, discutido nesta reportagem: não acredito que o problema de lealdade tenha sido criado unicamente pelas empresas. Acredito, sim, que os anseios dos profissionais é que mudaram. Poucos querem viver uma vida inteira na mesma organização porque a mudança tem pontos muito interessantes, que trazem novas experiências.

    Deve-se, portante, ter perspicácia quando coloca-se todas as fichas numa empresa. Esse bla bla bla de que a empresa é uma família é puro papo furado de RH.

  2. Roberto Cohen - 16 de abril de 2009 @ 3:25 pm

    Pois é, não entendi muito bem esse post.

    Um cara que é top de mercado é “ingênuo”
    O articulista parece surpreso e indignado por que um amigo foi demitido?
    Isso faz parte do mercado, independente dele ser (ou se achar) competente.
    Quanto a buscar reparação na Justiça do Trabalho, normal. Tribunais são para isso mesmo, mas… O percentual crescente de ações na justiça só mostra que estamos AVANÇANDO e não REGREDINDO em nosso processo civilizatório.

    Dica de pequeno texto do Pedro Mandelli sobre o tema:

    http://bit.ly/SlrN1

    Abraços,
    Cohen

  3. Julio Sergio Cardozo - 16 de abril de 2009 @ 5:43 pm

    De fato, parece que não entendeu mesmo o post. O que se está discutindo é a falta de ética e de lealdade das empresas com os seus principais executivos. E o amigo demitido acreditou nas promessas e foi enganado. A relação de confiança foi quebrada e haverá consequências desastrosas. As empresas precisam entender que a ética, a confiança, a lealdade são pressupostos indispensáveis. Espera-se que o meu amigo não seja um exemplo a seguir. Agora, convenhamos, considerar avanço e não retrocesso a busca pela reparação na justiça pela deslealdade é acreditar que vale tudo no mundo corporativo atualmente. Não pode ser verdade.

  4. Roberto Cohen - 17 de abril de 2009 @ 9:37 am

    Começando pelo fim:

    1) Progressão no processo civilizatório por que as pessoas antigamente NÃO BUSCAVAM os recursos legais para reparação. Assim, se tem mais gente buscando, significa que está se consolidando uma conscientização sobre o tema, ao invés de simplesmente dar os ombros. Não significa que vá ganhar ou coisa parecida, mas significa usar os recursos legais para defender sua causa.

    2) Sinceramente, não compreendo seu questionamento sobre lealdade. Não estamos no Oriente Médio. Ou Japão. Lá sim, esse quesito é valorizado. No mundo ocidental - recomendo Comportamento organizacional de Cohen (não sou eu) ou Fundamentos do comportamento organizacional do Robbins - os valores são outros.

    É um acordo de negócio. Seu colega empresta seu tempo e competência para a empresa. Ela, em troca, devolve com algo que é interessante a ele. No futebol, por exemplo, já existe há muito contratos de rescisão com multas e várias outras situações em que se valoriza se VALE A PENA ou não desligar alguém.

    “Seu amigo acreditou nas promessas?”

    Seu amigo tem 12 anos? Seu amigo fez um contrato por escrito?

    Seu amigo GANHOU algo durante o tempo em que esteve na empresa?

    Pô, Julio… O mundo não é justo.

    E me desculpe se minha opinião diverge da sua. Pra isso estamos aqui. Pra debater, questionar. E aprender.

    Abração.El Cohen
    http://twitter.com/robcohen

  5. Andrea - 12 de maio de 2009 @ 8:42 pm

    Roberto Cohen, você deve ser um pratro cheio para um psicanalista dado o seu complexo de superioridade mal resolvido.
    Ah, e por favor, não mencione Pedro Mandelli, pois ELE é um excelente professor e profissional e não merece ser citado em seus delírios.
    E se ‘o mundo não é justo’ como mesmo você diz, é porque nele, infelizmente, há pessoas que pensam como você.
    Vê se se cuida, pelo bem dos demais.
    Julio Sergio, perdoe-me. Não deu para segurar.

  6. Sérgio Ribeiro - 8 de junho de 2009 @ 8:42 pm

    Infelizmente, alguns realmente acreditam que, no campo ético, a formalização é mais importante que o compromisso assumido, onde um pedaço de papel sobrepoe a palavra de pessoas.

    Me preocupa muito o fato de virem a ser levados a cabo apenas os compromissos formalizados, inclusive quando necessário termos que buscar na esfera judicial sua consecução. Não é a toa que nossos tribunais estão apinhados de reclamações que travam o seu exercício.

    Não se trata de buscar nas empresas privadas atitudes assistenciais, onde eventualmente há situações em que são necessárias ações extremas para correção de rumo ou manutenção de sua continuidade. Isso faz parte em todas as relações.

    Contudo, entendo que está em pauta, sobretudo, a relação entre pessoas. Afinal, as políticas empresariais são construídas por pessoas ou por um software autoprogramável?

    Ética é uma coisa que preservo, exerço e exijo. Lealdade é para existir em via de mão dupla e sua falta prejudica a comunidade como um todo.

    Respeito aqueles que não concordam com o professor Julio e torço que, ainda que aceitem esse tipo de tratamento, não o sintam na pele.

    Prof. Julio, obrigado por manter este espaço para reflexão e debates.

  7. Marcelo Cachoeira - 29 de abril de 2010 @ 3:39 pm

    Não concordo pois, o profisional deveria concerteza ser mais aceito e valorizado por ter acrecentado mais valores a organização em que etava engajado.

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Prof. Livre-docente Julio Sergio Cardozo

Consultor em gestão de negócios, conferencista, autor de livros e artigos e professor livre-docente em controladoria e finanças.

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