Robespierre Castilho, um amigo de longa data, foi pego de surpresa dias atrás ao receber a notícia de que estava demitido. Sem chão e perplexo com a decisão, se sentiu enganado, vítima de sua própria ingenuidade. Principalmente porque o que recebeu em troca aos resultados gerados à companhia foi o não cumprimento de promessas feitas quando contratado.
Muito pelo contrário, ganhou um belo pontapé no traseiro e as “stock options”, relativas ao seu brilhante desempenho, sumiram, da mesma forma que seu nome da folha de pagamento. O que, em princípio, pode parecer um fato corriqueiro, tem um componente essencial, que há muito foi enterrado no mundo corporativo: a lealdade.
Desde que aceitou o convite para comandar a empresa do mundo “fashion”, em 2000, Robespierre promoveu uma reviravolta não só na organização como, também, no setor. Quintuplicou as vendas nos três primeiros anos, tirando a companhia do prejuízo, além de criar diferenciais competitivos que abalaram os concorrentes - tanto que muitos deles precisaram se adaptar à nova realidade do mercado criada pelas idéias do Castilho. Mas vimos que seus esforços de nada adiantaram. Tudo jogado fora.
Considero uma total falta de respeito a forma como as empresas vêm cortando seus talentos. Demitir faz parte do jogo. O que me causa espanto é a ausência de princípios éticos nas relações profissionais. Por isso, estamos assistindo a novo panorama nas companhias.
Acabou o tempo em que as pessoas “vestiam a camisa” da empresa. Pode parecer algo um tanto perverso para as organizações, mas não podemos esquecer que foram elas mesmas que criaram esse cenário. São reféns de suas próprias ações. E agora, pagam o alto preço. Os executivos não hesitam mais em brigar por seus direitos, mesmo que isso implique em medidas extremas.
Uma matéria que saiu recentemente na Gazeta Mercantil mostra que com a crise o número de ações trabalhistas promovidas por executivos aumentou de forma ímpar. Em alguns escritórios jurídicos, esse volume cresceu 30%, enquanto por outro lado também há uma forte demanda de profissionais que têm interesse em recorrer à justiça.
Na maioria dos casos, são ex-presidentes e diretores que não receberam seus bônus, garantidos tanto verbalmente quanto em contrato, depois de demitidos. As empresas acabam culpando os altos executivos de seus prejuízos ou maus resultados pós-crise. Concordo com o advogado Augusto Rodrigues Jr., sócio do Rodrigues Jr. Advogados, quando na reportagem ele afirma que o quadro atual abriu uma porta, revelando que, com crise ou sem, todos podem ter direitos igualitários.
Felizmente, meu amigo Robespierre faz parte dessa nova leva de profissionais que valorizam seu passe. No dia seguinte à demissão, em vez de seguir em direção ao seu antigo escritório na avenida Faria Lima (um dos maiores centros de negócios da América Latina), tomou outro rumo: o da Justiça do Trabalho.




Você não tem de ceder!